Roubaram o meu carro!


 O Edu tem aquele jeito dele, sabe? Uma ironia fina que descasca a realidade sem perder a piada, mesmo quando o assunto é meio trágico. Outro dia, no Elite, em Santa Teresa, enquanto mexia distraidamente o copo de para-tudo, ele me soltou:

— Meu amigo, a velhice é um assalto diário. A diferença é que o ladrão mora dentro da nossa própria cabeça.

Eu ri.

— E como é que você chegou a essa conclusão filosófica?

Ele suspirou.

— Por causa da minha irmã.

Quando o Edu fala “minha irmã”, já sei que vem história. Márcia completou 73 anos há poucos dias; nada fora do comum até aparecerem os esquecimentos que a família chamava de “coisinhas da idade”. Primeiro vieram os óculos desaparecidos, depois as chaves, o controle remoto, o celular.

Certa vez ela passou meia hora procurando os óculos que estavam sobre a cabeça. Noutra, procurou o celular enquanto conversava nele. Mas o sinal vermelho acendeu quando chegou a época de renovar o licenciamento anual do seu carro.

A filha acessou o site do Detran. Quando a tela carregou, ninguém acreditou. Parecia resultado de campeonato: multa por avanço de sinal, por conversão irregular, por estacionamento indevido.

Mas havia também o troféu de ouro: catorze multas por trafegar na contramão. Catorze!

— Catorze? — perguntei.

— Catorze — confirmou o Edu. — Minha teoria é que ela estava tentando implantar a mão inglesa em Santa Teresa sem consultar ninguém.

Fez uma pausa.

— Ou então achava que aquelas setas pintadas no asfalto eram apenas manifestações artísticas da prefeitura.

Diante da perspectiva de Márcia virar personagem fixa do noticiário policial, a família convocou uma reunião de emergência. Sentaram-se à mesa Edu, a filha da Márcia e o ex-marido dela.

O ex-marido, divorciado há anos, vivia aparecendo para ajudar.

— O homem já ganhou vaga no céu por antecipação — comentou Edu.

Depois de muita conversa, o veredito foi unânime: o carro precisava sair de circulação. Pela segurança de Márcia e dos pedestres, mas principalmente pela segurança dos postes.

A decisão foi comunicada. A reação de Márcia foi imediata.

— Vocês querem me prender dentro de casa!

— Não, Mãe — explicou a filha. — Queremos evitar que você transforme o bairro num circuito de rally.

— Eu dirijo há cinquenta anos!

— Justamente. E parece que nos últimos meses você resolveu dirigir os cinquenta ao mesmo tempo.

O Edu conseguiu vender o veículo para uma senhora conhecida. O preço foi acertado pela Tabela FIPE, com uma entrada generosa e mais duas parcelas em poucos dias.

A compradora explicou que precisava de um tempinho para realizar alguns “desinvestimentos”.

Quando me contou isso, o Edu caiu na gargalhada.

— Desinvestimento é uma palavra maravilhosa.

— Por quê?

— Porque ninguém nunca diz “estou sem dinheiro”. Diz que está fazendo desinvestimentos.

A venda se concretizou e, com o dinheiro na conta, a família respirou aliviada.

Pela primeira vez em meses, todos imaginaram que poderiam dormir sem receber uma ligação da polícia, dos bombeiros ou da associação dos fabricantes de placas de trânsito.

Mas a paz durou menos que promoção de supermercado. Na manhã seguinte, Márcia acordou, tomou café, pegou a bolsa e desceu para a garagem.

Quando chegou ao subsolo, diante da vaga, olhou para o espaço vazio. Paralisou.

Cinco segundos depois, pegou o telefone. A filha atendeu.

— Roubaram meu carro!

— Mãe, ninguém roubou o seu carro. A senhora vendeu.

— Eu vendi?

— Vendeu.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Estranho...

Cinco minutos depois, o telefone tocou novamente.

Era o Edu. Ou melhor, era Márcia ligando para Edu em tom choroso.

— Edu! Levaram meu carro!

— Márcia, você vendeu.

— Eu vendi?

— Vendeu.

— Quando?

— Há duas semanas.

— E por quê?

— Porque você acumulou catorze multas na contramão.

Silêncio.

— Ah...

Minutos depois, ela ligou para o ex-marido.

— Roubaram meu carro!

— Márcia, você vendeu.

— Eu vendi?

— Sim.

— Quem deixou?

— Você.

Aquela sequência repetiu-se no dia seguinte. E no outro. E no outro.

Segundo Edu, durante um período a rotina foi tão previsível que dava para acertar o relógio pelas ligações.

Às oito da manhã, telefonema para a filha. Às oito e cinco, telefonema para ele. Às oito e dez, telefonema para o ex-marido.

— Eu já estava pensando em gravar uma mensagem automática — contou Edu. — Algo como: “Olá, Márcia. Sim, você vendeu o carro. Não, ele não foi roubado. Sim, foram catorze contramãos. Tenha um bom dia.”

Hoje a situação está mais tranquila. O dinheiro entrou e o negócio foi concluído. O carro está longe.

Os pedestres voltaram a atravessar as ruas com mais confiança. Os postes vivem dias de serenidade. Mas Márcia continua inconformada. Se você sentar para tomar um café com ela, não demora cinco minutos para ouvir:

— Tiraram minha independência.

— Você era uma motorista perigosa — rebate Edu.

— Nunca bati em ninguém.

— Por milagre.

— Sempre dirigi muito bem.

— Márcia, você recebeu catorze multas por contramão…

— Catorze? como assim? Que exagero…

— Está vendo porque vendemos o carro?

Ele balança a cabeça, resignado. E então conclui:

— No fundo, ela tem razão em reclamar. A liberdade é boa demais. O problema é quando quem solta as rédeas não é a coragem, nem a rebeldia. É a memória.


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