Era um sábado de manhã típico em Jardim da Penha. A claridade já vinha forte sobre as árvores da rua. Eu caminhava até a tabacaria para comprar alguns charutos para o fim de semana. Pensava que era alguém tentando garantir pequenos luxos silenciosos para sobreviver à semana seguinte.
Só que o bairro, às vezes, parece gostar de interromper a rotina da gente com delicadezas inesperadas.
No meio do caminho, dei de cara com a feira de antiguidades da Rua da Lama. Eu tinha esquecido completamente que era dia dela. As barracas ocupavam toda a sua extensão, numa desordem curiosamente harmônica, como se o passado tivesse resolvido tirar o sábado de manhã para respirar ao ar livre.
Diminui o passo quase sem perceber.
Havia relógios de bolso que não marcavam mais hora nenhuma, rádios antigos, fotografias amareladas de famílias desconhecidas, vitrolas, medalhas militares, máquinas de escrever e livros tão gastos que pareciam cansados de carregar histórias. Algumas louças tinham pequenas rachaduras discretas, dessas que não inutilizam o objeto, apenas o tornam mais humano.
Fiquei andando devagar entre as barracas enquanto o mundo moderno seguia correndo logo ali ao lado. Bastava levantar os olhos para ver gente atravessando a rua olhando para o celular, respondendo mensagens com urgência de pronto-socorro, reclamando do trânsito, consultando relógios inteligentes para medir passos, sono, batimentos e talvez até o nível de ansiedade.
Achei curioso como todo mundo anda tentando economizar tempo sem realmente saber o que fazer com ele depois.
Foi então que percebi o vendedor.
Era um senhor magro, de barba curta já bem branca, sentado atrás de uma mesa coberta por objetos de outras décadas. Ele tinha uma calma quase ofensiva para os padrões atuais. Não demonstrava qualquer pressa em vender, convencer ou negociar. Apenas observava o movimento como quem assiste à passagem de um rio.
Pensei, meio sorrindo sozinho, que talvez aquele homem tivesse a profissão mais estranha do mundo: ele comercializava pedaços do tempo.
Me aproximei de sua banca. Havia ali uma ampulheta de madeira escura, pequena, elegante, com o vidro levemente fosco pelos anos. Ao lado dela, repousava um diário antigo encadernado em couro, com detalhes dourados já apagados pelo desgaste.
Passei os dedos sobre a capa do diário e imediatamente me veio aquela curiosidade inútil que às vezes invade a gente: quem teria escrito aquelas páginas? E, principalmente, por que parou no meio? A vida interrompeu o autor? O amor acabou? Faltou coragem?
Ou simplesmente chegou um dia em que escrever perdeu a importância diante das contas, das doenças, das pressas e das pequenas tragédias comuns que engolem quase todo mundo?
A verdade é que a maior parte das histórias termina incompleta, embora a gente finja que não.
Continuei olhando os objetos enquanto um pensamento meio incômodo começava a surgir. Talvez a nossa geração tenha desaprendido a habitar o presente. A gente vive se lançando para o próximo compromisso, para o próximo problema, para a próxima meta, como se existir fosse sempre uma preparação para alguma coisa que ainda vai começar. E, no meio disso, o hoje vai passando despercebido.
Acumulamos informação demais e experiência de menos. Sabemos de guerras instantaneamente, acompanhamos a vida de desconhecidos em tempo real, consumimos opiniões sem parar, mas raramente conseguimos permanecer dez minutos em silêncio sem procurar distração.
Talvez seja por isso que as antiguidades exerçam tanto fascínio.
Ninguém compra uma velha máquina de escrever porque ela seja prática. Nem uma vitrola porque o som seja mais limpo. Muito menos uma ampulheta pela precisão. As pessoas compram essas coisas porque procuram tocar algo que pareça mais sólido do que essa realidade líquida em que tudo muda rápido demais. Uma âncora emocional.
Olhei novamente para a ampulheta.
O vendedor percebeu meu interesse, mas não fez esforço algum para convencer. Apenas disse o preço com a serenidade de quem venderia — ou não — do mesmo jeito.
Comprei sem pechinchar.
Enquanto ele preparava a maquininha para passar o cartão, fiquei observando os grãos de areia imóveis na parte inferior do vidro. Quando peguei a ampulheta nas mãos e a virei de ponta-cabeça, a areia começou a escorrer lentamente.
Foi então que me ocorreu um pensamento meio bobo, desses que provavelmente só aparecem em quem toma café demais logo cedo: talvez o futuro não exista da maneira grandiosa como imaginamos. Talvez ele seja apenas isso — um punhado de areia caindo devagar, transformando o amanhã em ontem sem fazer escala no presente.
Achei a ideia pretensiosa demais até para mim mesmo e dei uma pequena risada sozinho.
Guardei a ampulheta na sacola, agradeci ao vendedor com um aceno de cabeça e segui meu caminho até a tabacaria. Assim que entrei, o cheiro familiar de tabaco me devolveu imediatamente ao mundo concreto das coisas simples. Escolhi alguns charutos baianos, conversei sem pressa com o atendente sobre amenidades e depois saí caminhando devagar de volta para casa.
O sábado ainda estava começando. Os grãos de areia continuavam caindo silenciosamente dentro da sacola.
E eu, talvez pela primeira vez em muitos dias, tinha conseguido apenas existir.
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