Aprender a flanar


 Conheci João do Rio tarde: o dândi observador das esquinas como era conhecido em sua época. Há autores que a gente lamenta não ter encontrado antes, porque parece que sempre estiveram nos esperando. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler A alma encantadora das ruas. Não era apenas uma obra escrita. Era como se ele me tomasse pelo braço e me convidasse a caminhar pela cidade com outros olhos.

Em determinado momento, escreve que “a rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo”. Logo depois acrescenta que há “suor humano na argamassa do seu calçamento”. Parei a leitura por alguns instantes. Nunca havia pensado a rua dessa maneira. Sempre a enxerguei como passagem, nunca como personagem.

Esse é um privilégio dos grandes escritores: eles não nos mostram coisas novas; mostram de forma nova aquilo que esteve diante dos nossos olhos a vida inteira.

Desde então, passei a reparar mais nas ruas. Não apenas no asfalto, nas calçadas ou nas fachadas, mas nas pessoas que lhes dão vida. Quem são? Para onde vão? O que carregam além das mochilas, bolsas e sacolas? Quantas alegrias caminham apressadas? Quantas preocupações atravessam um sinal de trânsito? Quantos sonhos dobram a esquina todos os dias sem que ninguém perceba?

Enquanto fazia essas perguntas, lembrei-me de outra passagem de João do Rio. Ele diz que “flanar é a distinção de perambular com inteligência”.

Gostei da definição. Perambular qualquer um consegue. Basta ter pernas e seguir. Flanar exige outra disposição. Exige tempo, curiosidade e, principalmente, disponibilidade para deixar que a cidade também nos atravesse.

Acho que faz muito tempo que desaprendi a flanar. Ou nunca tenha aprendido.

Quase sempre caminho para chegar. Vou ao banco, ao mercado, ao trabalho, à farmácia. Meus passos têm destino, horário e alguma urgência. Raramente saio apenas para permitir que a rua me conte alguma coisa.

Foi então que, sem saber bem por quê, lembrei de Diógenes de Sínope, o filósofo do cinismo e mendigo provocador da ágora. Imagino que ele teria gostado de caminhar por essas mesmas ruas, embora provavelmente estranhasse muita coisa. Talvez olhasse as vitrines cheias de novidades, os automóveis cada vez mais numerosos, os celulares cada vez mais sofisticados e perguntasse, com aquele humor provocador que lhe era próprio, quantas daquelas coisas realmente fazem falta.

Enquanto João do Rio me ensinava a olhar melhor o teatro das ruas, Diógenes parecia cochichar que talvez eu também devesse diminuir o teatro das minhas próprias necessidades.

Aquelas questões ficaram comigo. Percebi que boa parte do meu esforço diário não é para viver melhor, mas para sustentar as vaidades que aprendi a considerar indispensáveis. Comprar objetos que uso tão pouco, guardar roupas para ocasiões improváveis, ocupar a casa com coisas que um dia pareceram importantes e hoje apenas acumulam poeira.

Não há nada de errado em desejar conforto. O problema começa quando o conforto passa a exigir um preço maior do que ele vale.

Diógenes dizia isso vivendo quase sem nada, dentro de uma barrica. Eu não conseguiria imitá-lo. Gosto dos meus livros, da minha parafernália eletrônica, do café da manhã sem pressa, da poltrona onde costumo ler e da mesa onde escrevo estas linhas.

Ele não estava nos convidando à pobreza, e sim à liberdade. Liberdade para distinguir o necessário do supérfluo. Liberdade para não medir a própria vida pela vitrine dos outros. Liberdade para descobrir que nem tudo o que pesa ocupa lugar nas mãos.

Enquanto essas ideias iam e vinham, continuei caminhando. Um menino corria atrás de uma bola completamente alheio às notícias do mundo. Um casal de idosos seguia de braços dados num ritmo que parecia desafiar a pressa da cidade. Um gari empurrava sua vassoura com a tranquilidade de quem conhece intimamente cada metro daquela rua.

Pensei que todos, de algum modo, também escreviam a cidade. Não com palavras, mas com passos. João observou isso muito bem em sua crônica. A rua não é feita apenas de pedras, postes e esquinas. Ela é feita de gente. Das histórias que se cruzam sem se conhecer. Das vidas que se tocam por um segundo e seguem adiante. Dos encontros que acontecem e, principalmente, dos que deixam de acontecer.

Então compreendi por que aquele texto continuava ecoando dentro de mim. No final das contas, não são apenas as pessoas que passam pelas ruas. As ruas também passam por nós.

E talvez seja por isso que ele tenha escrito que “nós pensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos”.

Fechei o livro e saí para flanar. Não aprendi a viver com menos e me deixo seduzir por algumas inutilidades; continuo confundindo necessidade com desejo mais vezes do que gostaria de admitir. Mas agora, caminhando sem tanta pressa, tenho a impressão de que a rua está discretamente me ensinando aquilo que os livros apenas começaram a dizer. E quem sabe, insistindo nesse exercício de flanar, eu acabe encontrando um caminho próprio pela cidade, um caminho para dentro de mim.


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