Por volta das sete da manhã, o sol já desenhava linhas douradas sobre o asfalto de Jardim da Penha. Era um daqueles dias luminosos, de céu lavado e ar fresco, que pareciam carregar um convite silencioso para se viver devagar. Enquanto os feirantes finalizavam a arrumação das barracas — descarregando caixas, ajeitando as frutas e preparando o tradicional milho verde cozido —, eu caminhava calmamente em direção ao laboratório.
Era dia de exames de rotina, um ritual que repito a cada quatro meses. Acordei com uma disposição leve, daquelas que fazem a mente flutuar em busca de palavras. Como cronista do cotidiano, a beleza daquela manhã já operava na minha cabeça: pensava em tecer um paralelo entre a luz física do amanhecer e a luz do conhecimento, talvez buscar uma metáfora que traduzisse o frescor das primeiras horas. Mas resolvi não ter pressa. Primeiro, haveria de cumprir o pequeno tributo à agulha e ao tubo de ensaio no laboratório de análises clínicas. Silêncio e paciência.
Minutos depois, com o pequeno curativo no braço e o dever cumprido, voltei à rua. Sentia-me preenchido por um bem-estar genuíno. Ao caminhar em direção ao carro, a sensação de uma vida satisfeita e harmoniosa era tão palpável que cheguei a cogitar, por um instante, a eudaimonia aristotélica. Sorri sozinho. Pensei que, talvez, batizar aquele momento com um conceito grego tão imponente fosse exagero para uma simples manhã de quarta-feira no bairro. Não precisava de tanto. O sentimento bastava por si só.
Foi quando, perto da barraca de milho verde, algo capturou meu olhar: um canarinho ciscava calmamente no chão. Mas não era um desses passarinhos da terra, de tons discretos e acinzentados. Era de um amarelo vivo, solar, quase inacreditável no meio do burburinho da montagem da feira. Aquela visão singela operou um milagre instantâneo na minha memória, transportando-me imediatamente para as páginas de Rubem Braga. O mestre capixaba da crônica também tinha os seus canários. Mais tarde, já em casa, eu consultaria seus livros para redescobrir que o pássaro da minha lembrança era o cobiçado Harzer Roller, imortalizado na crônica “Apareceu um canário”, escrita no longínquo maio de 1960.
Ali, parado na calçada, percebi que tinha um punhado precioso de assuntos nas mãos: a luz da manhã, o exame cumprido, a paz no peito e o canário do Braga. Faltava apenas costurar os fiapos, os retalhos e dar um sentido ao texto.
No entanto, o cotidiano é um bicho arisco. Bastou eu entrar no carro e girar a chave para que a harmonia do mundo rachasse ao meio. A poucos metros dali, estourou um bate-boca violento. Três ou quatro homens, provavelmente comerciantes tomados pelo estresse da jornada, iniciaram uma discussão ruidosa, com empurrões e um vozerio carregado de raiva. O meu instinto de preservação — alimentado pelo desejo de proteger o próprio estado de graça — gritou para que eu desse a partida e saísse dali o mais rápido possível.
Mas a rua já havia sido engolida por curiosos. Cercado pela aglomeração, fui obrigado a assistir àquela coreografia hostil de perto. Demorou alguns minutos até que a turma do “deixa disso” aparecesse para apartar a briga e liberar a via. O trânsito fluiu e segui o meu caminho.
Mas o encanto havia quebrado. O volante parecia mais pesado; o azul do céu, um pouco menos nítido. A crônica leve, feliz e solar que se desenhava na minha mente desfez-se no ar como fumaça, atropelada pela crueza de um instante de fúria alheia. “Fica para a próxima”, pensei, conformado.
Ganhando a avenida principal, restou-me apenas o eco de algo precioso que se perdeu pelo caminho. Não era apenas a crônica que não seria escrita, mas aquela pureza inaugural das sete da manhã, uma calmaria que parecia eterna e que, no entanto, durou menos que o tempo de uma discussão na feira. Ficou a lembrança miúda daquele segundo exato em que um canarinho amarelo bastava para fazer o mundo parecer perfeito. Talvez a paz seja isso: um pássaro que pousa por um instante diante de nós e desaparece ao primeiro grito dos homens.
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