Ele morde a ponta do pão ainda quente, sentindo o sabor simples e exato do sal e do trigo. O pão não significa nada além de si mesmo. Dentro de algumas horas, será apenas lembrança; amanhã, a fome voltará, como voltou ontem e voltará depois. Nada se completa. Nada permanece.
Não há grande plano. Não há destino manifesto. Não existe resposta escondida atrás das nuvens, nem propósito aguardando pacientemente para ser descoberto. Há apenas corpos que comem, trabalham, envelhecem e desaparecem, enquanto o sol, absolutamente indiferente às esperanças humanas, continua a nascer sobre vivos e mortos com a mesma impassível regularidade.
Seu Joaquim sorri de leve. Não porque tenha encontrado um sentido, mas porque compreendeu que talvez jamais houvesse um. Ajeita a sacola debaixo do braço e já se vira para a porta quando Dona Alzira, distraída, repete o gesto de sempre:
— Até amanhã, seu Joaquim.
— Até amanhã — responde ele. E a frase, dita milhares de vezes, pesa hoje de um jeito diferente.
— O senhor vem sempre, não é? Há quantos anos é isso? — pergunta ela, rindo, apenas para preencher o silêncio.
— Trinta e dois.
A resposta vem sem hesitação, como quem recita um número que já deixou de exigir cálculo.
— E nunca enjoou do mesmo pão?
Joaquim demora um instante para responder. Não está pensando no pão.
— Enjoar é desejar outra coisa. Eu só continuo vindo.
Dona Alzira sorri, sem compreender inteiramente, e volta a atender o cliente seguinte. Joaquim sai. Caminha entre pessoas ocupadas em repetir gestos que também não explicam nada. Amanhã voltará à padaria. Comprará o mesmo pão, ouvirá a mesma despedida, entregará as mesmas moedas, constatando que a vida não havia revelado nenhum significado oculto diante de um universo que nada promete e nada explica. Ele havia escolhido, mais uma vez, continuar caminhando até que amanhecesse outra vez.
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