Às vezes olho para trás e me surpreendo com uma constatação desconcertante: durante muito tempo imaginei que estava a caminho de me tornar alguém. Hoje suspeito que nunca houve esse alguém à minha espera.
Quando era mais jovem, acreditava que a vida escondia uma espécie de forma ideal. Bastaria encontrá-la. Havia uma imagem de futuro que me parecia nítida, quase inevitável. Eu a confundia com destino. Com o passar dos anos, porém, fui percebendo que aquela figura não passava de uma hipótese entre muitas outras.
A vida não confirmou quase nenhuma das minhas previsões. Em vez disso, apresentou circunstâncias, perdas, encontros, fracassos, desvios. E cada um deles exigiu respostas que eu não possuía de antemão.
Foi assim que comecei a desconfiar de uma ideia que sempre me pareceu confortável: a de que existe, escondida em algum lugar, uma versão verdadeira de nós mesmos esperando para ser encontrada. Hoje me parece o contrário. Nunca houve um “eu” pronto. Houve apenas decisões sucessivas, algumas lúcidas, outras tomadas no escuro que, pouco a pouco, foram desenhando um contorno.
Não me tornei aquilo que imaginei aos vinte anos. E certamente isso não é uma derrota.
Há pessoas que entram em nossa vida e partem. Há projetos que terminam antes de amadurecer. Há convicções que envelhecem mais rápido do que gostaríamos. Em cada uma dessas passagens, algo fica para trás. Seguir adiante exige espaço e demanda esforço. Carregamos menos do que imaginávamos e, justamente por isso, continuamos andando.
Percebo hoje quantas versões de mim ficaram pelo caminho. Algumas deixei partir sem resistência. Outras se afastaram apesar de todos os meus esforços. Ainda assim, cada uma delas participou da construção desta pessoa que agora escreve estas linhas.
O curioso é que a liberdade raramente se apresenta com a leveza que lhe atribuem. Muitas vezes ela pesa. Escolher significa assumir consequências, e ninguém pode fazê-lo em nosso lugar. Há dias em que seria mais fácil acreditar que tudo já estava decidido. Que os erros pertencem às circunstâncias e os acertos a algum desígnio benevolente. Mas a vida raramente concede esse conforto.
Houve momentos em que não enxerguei sentido algum no que estava vivendo. Nada parecia apontar para lugar nenhum. Ainda assim, o dia seguinte chegava e, de algum modo, eu continuava. As respostas não apareciam, mas a necessidade de seguir adiante permanecia. Foi então que compreendi que continuar também é uma escolha.
Talvez seja isso que vejo quando me observo hoje. Não uma obra concluída ou alguém que finalmente encontrou sua essência. Vejo apenas a soma provisória de muitas decisões, algumas acertadas, outras nem tanto, mas todas irrevogavelmente minhas — a pura tradução da máxima de Sartre mostrando que a existência precede a essência.
E essa percepção tem algo de inquietante e de libertador. Não existe um molde original ao qual eu tenha falhado em corresponder. Não existe uma versão perfeita de mim escondida em algum passado imaginário. Existe apenas este percurso, com seus desvios e suas marcas.
Se algum sentido habita a minha vida, ele não foi descoberto. Foi construído.
E continua sendo.
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