Un pacchetto di sigari


 O maço de charutos Toscano Classico ainda está lacrado no papel celofane, bem ao lado do meu notebook. Olho para ele e, de certa forma, vejo o tempo materializado ali, repousando no tampo da mesa. Foi um mimo do Almir, um querido amigo que acaba de retornar de uma longa jornada pela Itália e pela Grécia, onde celebrou com a esposa trinta e cinco anos de uma vida somada. Ele me trouxe duas coisas: um chaveiro singelo com a inicial do meu nome, a letra G, e esses charutos. Contou-me passagens engraçadas da viagem, alguns sobressaltos e aqueles inevitáveis perrengues que, quando acontecem em solo estrangeiro, parecem tragédias, mas depois viram piada na mesa de bar.

Agradeci o gesto, mas o que o Almir não sabia é que, ao me entregar aqueles charutos, ele me deu também uma chave para o passado. Sempre que penso na Itália, minhas memórias costumam caminhar quase automaticamente pelas colinas e ruelas da Toscana, um território que fiz um pouco meu pelas tantas vezes que lá estive. Mas hoje, o destino do meu pensamento foi outro. Desviei a rota habitual. Fui parar no deck, sobre o mar, de um hotel na ponta mais afastada da Marina Grande, em Sorrento.

Fecho os olhos por um segundo e quase posso sentir o vento. À minha frente, o Golfo de Nápoles se espalhava imenso e, distante, a silhueta imponente do Vesúvio desenhava o horizonte. Eu não estava sozinho. Viajava com minha mulher e outro casal de amigos. Era um final de tarde particularmente frio de um fim de março, daqueles em que o inverno se recusa a ir embora, num ano qualquer que a memória já permitiu que se perdesse no tempo.

Estávamos ali, suspensos na beleza quase acintosa do lugar, um cenário tantas vezes cantado por poetas e retratado por pintores desde que o mundo é mundo. E nós, meros viajantes, éramos as testemunhas daquela magia ordinária. Havia uma garrafa de limoncello sobre a mesa e um charuto aceso entre os meus dedos. Lembro perfeitamente da nossa conversa. Falávamos, com uma ponta de melancolia antecipada, sobre como o presente é uma matéria gasosa, que nos escapa por entre os dedos. Dissemos, quase como um pacto ou uma profecia: "Um dia, vamos sentir uma saudade absurda disso tudo aqui". Perguntamo-nos se haveria uma oportunidade de retornar, de repetir exatamente o mesmo roteiro, de congelar o instante.

Há uma beleza dolorosa no cotidiano quando ele se dá conta de si mesmo. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard dizia que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente. Naquele deck em Sorrento, tentamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Capturamos o instante sabendo que ele já nascia com vocação de lembrança. Queríamos a eternidade em um fim de tarde frio.

Hoje, o amigo que dividia o limoncello e as risadas conosco já se foi. Morreu. Não o verei mais. A vida seguiu seu fluxo natural e implacável, me deixando por aqui, sobrevivente e guardião daquela tarde de março. Não tenho perspectivas de retornar à Marina Grande. O cenário continua exatamente lá, o Vesúvio ainda guarda o golfo com sua imponência silenciosa, mas a engrenagem humana que tornou aquele dia único foi desmontada pelo tempo. A impermanência é a única certeza que carregamos na bagagem da existência. Mudamos nós, mudam os amigos, mudam as circunstâncias. As escolhas invisíveis do destino nos moldam e nos afastam dos portos onde fomos felizes.

Olho novamente para os charutos sobre a mesa. O presente do Almir acabou por reabrir uma gaveta que eu achava trancada. Talvez a grande sabedoria da experiência humana não esteja em tentar repetir as viagens ou em buscar o retorno impossível aos lugares que nos marcaram. Talvez a mágica esteja, simplesmente, na capacidade de acolher o que resta, transformando a ausência em presença viva através da escrita.

Por enquanto, o que me resta é essa saudade bonita, que já não machuca, mas preenche com calor o silêncio da tarde. E, claro, os charutos que Almir me trouxe, o amigo que a vida ainda me permite abraçar. Quem sabe um dia eu os acenda? Un pacchetto di sigari. Chissà? Até lá, eles ficam aqui, ao lado do notebook, como um lembrete sutil de que a vida é feita dessas intersecções invisíveis entre o que fomos, o que perdemos e o carinho que insiste em bater à nossa porta no presente.


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