Dona Lurdes chega ao ponto sempre dez minutos antes do necessário. Não porque tenha pressa — pelo contrário, sobra-lhe tempo até demais —, mas porque chegar adiantada é, para ela, uma forma de provar que ainda controla alguma coisa na vida. O ônibus, esse, vem quando quer.
Seu Nelson já está lá, sentado no frio banco metálico, com o jornal de ontem dobrado debaixo do braço como se fosse de hoje. Os dois se conhecem do jeito que se conhece quem mora no mesmo bairro há décadas: pelo rosto, pelo horário, por um cumprimento que nunca virou conversa de verdade.
— Atrasado outra vez — diz Dona Lurdes, olhando para a rua vazia.
— Sempre atrasado — responde Seu Nelson, sem tirar os olhos do nada.
Ficam ali, lado a lado, dois corpos esperando um ônibus que, segundo a tabela afixada no poste, deveria ter passado havia sete minutos. Carros passam. Um cachorro caramelo atravessa a rua sem pressa nenhuma, como se também tivesse onde não chegar. O sol bate de lado, do jeito que bate só de manhã, antes de decidir esquentar de verdade.
É nesses minutos mortos, esses intervalos que a vida insiste em encaixar entre uma obrigação e outra, que as coisas mais estranhas costumam aparecer. Dona Lurdes, sem motivo algum, começa a pensar no número de vezes que já esperou naquele mesmo ponto. Não consegue calcular, é claro — seria preciso multiplicar dias por anos, e isso já passa de qualquer conta que valha a pena fazer —, mas a sensação de repetição lhe cai em cima de uma vez, pesada, como se alguém tivesse acabado de lhe mostrar uma fotografia do próprio tédio.
— Seu Nelson, o senhor já parou pra pensar quanto tempo da gente passa esperando coisas?
Ele olha para ela, meio surpreso. Não é o tipo de pergunta que se faz num ponto de ônibus.
— Esperando o quê?
— Sei não. Ônibus. Fila do banco. Resultado de exame. A gente espera a vida inteira.
Seu Nelson pensa por um tempo, o suficiente para que um carro passe e o silêncio entre os dois ganhe um peso diferente.
— E o que tem isso?
— Nada. Só que parece bobagem, né? A gente nasce, cresce, trabalha, cria os filhos, e no meio disso tudo fica esperando ônibus.
— Bobagem só é bobagem se a gente esperar alguma coisa melhor no fim — diz ele, dobrando o jornal de um jeito mais apertado, talvez só para ter o que fazer com as mãos. — Eu já não espero nada do ônibus. Só quero sentar.
Dona Lurdes ri, baixinho, sem saber bem por quê. Tem alguma coisa ali, naquela frase simples, que parece maior do que ela mesma. Talvez seja isso: ninguém promete que o ônibus vai chegar na hora, ninguém promete sentido pra essa espera toda. A gente só fica ali, no ponto, esperando, porque é isso que se faz quando se está vivo — esperar a próxima coisa, sem garantia nenhuma de que ela vai valer o tempo gasto.
O ônibus enfim aparece na curva, balançando, lento, indiferente ao atraso que causou. Os dois se levantam ao mesmo tempo, num gesto automático, treinado por anos de mesma rotina.
— Lá vem ele — diz Seu Nelson.
— Lá vem — repete Dona Lurdes, e por um instante aquilo parece quase uma piada entre os dois, embora nenhum saiba exatamente do que riem.
Sobem. Pagam a passagem. Sentam em bancos separados, como sempre. O ônibus segue pela rua de sempre, parando nos pontos de sempre, levando gente que, como eles, está apenas indo para algum lugar que não promete nada além de ser o próximo lugar.
Dona Lurdes olha pela janela. Não pensa mais em nada de especial. O dia segue seu curso banal, sem revelação alguma, sem resposta para a pergunta que fez minutos atrás. E talvez seja justamente isso — a ausência de resposta, a simplicidade do percurso repetido — o que faz da espera, no fundo, algo que se pode até aceitar com uma certa paz.
Amanhã ela vai estar de novo naquele ponto, dez minutos adiantada, o ônibus vai atrasar de novo, e vai esperar, sem exigir mais do que isso. Um olhar para a rua, outro para o relógio, e um bom-dia para Seu Nelson.
Depois, a espera. Como tantas outras. Como quase tudo na vida.
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