Romaria dos Homens
                                                                                                                                                                                                                                                                                Virgem da Penha, minha alegria,
Senhora nossa, ave Maria.
Frei Alfredo Setaro
Quando chegou a certa idade, o homem começou a nutrir a vontade de participar da Romaria dos Homens, um evento que acontece todo ano durante as festividades em homenagem a Nossa Senhora da Penha. Este ano não foi diferente. No início do ano, já estava pensando em se preparar fisicamente para a caminhada. A partir da Catedral Metropolitana de Vitória, a procissão percorre cerca de 14 quilômetros, sempre à noite, até o santuário da nossa padroeira, no alto do morro em Vila Velha.
Sua motivação em fazer esta peregrinação era buscar a reaproximação espiritual com a religião católica, que percebia estar acontecendo dentro de si, à medida que sua vida avançava nos anos. Nasceu em família católica, foi batizado na Igreja São Sebastião, em Jucutuquara, e fez a Primeira Comunhão na Igreja Nossa Senhora da Vitória, no Forte São João, mas ao longo do tempo mudou suas convicções. Esteve espírita, rosa+cruz e maçom.
Sempre acreditou em Deus, mas um Deus particularmente seu, sem uma concepção precisa de como Ele seria. Às vezes era um velho gordo e barbado, sentado num trono de cristal dourado e soltando peidos megatônicos, mandando e desmandando no Universo. Outras vezes, era uma energia cósmica, misteriosa e transparente, inexorável e simultaneamente presente e entranhada em tudo e na alma de todos. Estudou religiões e filosofias por conta própria. Pesquisou, perguntou, duvidou e inquiriu buscando a Verdade. Sempre acreditou que a alma é imortal e transcendente à vida material, embora em muitas ocasiões também tenha considerado a possibilidade do nada absoluto após o último suspiro na passagem pela jornada terrena.
Mas nos momentos decisivos de sua vida, tanto os alegres quanto os tristes, nas emergências e nos agradecimentos, aqueles momentos nos quais ele depositou toda a confiança e fé, invariavelmente pensava na imagem resplandecente da Mãe Protetora, Nossa Senhora, que, por afinidade e proximidade, é aquela que mora acima dos capixabas, no topo do morro da Penha.
De vez em quando, participava de alguma missa ou em outras ocasiões, precisando pensar, refletir e decidir algo mais sério subia à Penha: Avistando a cidade ao longe, abstraido-se dos seus fluxos, barulhos e agitação, conseguia um direcionamento correto para suas decisões, suas posturas ou mesmo mudanças no rumo da sua vida.
E agora, num momento interior particularmente importante, um sentimento profundo de amor pela vida, aliado a uma necessidade de conciliação com o Alto, a decisão de percorrer a pé a romaria se tornou uma realidade imperativa. E assim foi.
Por todo o percurso, ele rezou, agradeceu e pediu a Nossa Senhora. Sobretudo, agradeceu.
A caminhada se deu numa quente e abafada noite de abril. Sem um único sopro de vento sobre a copa das árvores pelo caminho, ele avançou cada um dos passos suando em bicas. Levando um terço nas mãos como símbolo máximo da religiosidade que queria demonstrar para si mesmo, ele viveu uma experiência muito especial. Lembrou-se das cerimônias a que foi submetido nas Ordens Iniciáticas das quais faz parte. Lembrou-se também da Comunhão que fez na Basílica de São Pedro, no Vaticano, num final de tarde do verão italiano, com os raios de um brilhante Sol penetrando os vitrais da pomba da paz por sobre a Cátedra de São Pedro. Foram experiências místicas belíssimas e cada uma delas, únicas ao seu modo, marcou profundamente sua existência.
Agora, cumprida a missão, ele ressurge diante de si próprio sentindo-se mais forte e com a sensação grandiosa de ter realizado uma tarefa difícil, mas exclusiva: É sua experiência, ele a executou. Ninguém mais o fez por ele.
Ele cresceu mais um pouco.

A mulher, o menino e a estagiária.

 
Lá pelas cinco da tarde o céu escureceu, e tão logo a moça percebeu que ia chover, tratou de correr para buscar abrigo na varanda de uma pequena casa na rua de um bairro distante. Casa de tijolos sem reboco e piso de barro batido, pobre, suja e em ruína, desde a temporada de chuvas do verão passado, estava cada vez pior. Era de se prever seu desabamento a qualquer instante.

A moça fazia um serviço de levantamento das condições de conservação das habitações no bairro, a mando da empresa que havia vencido a licitação para as obras contenção de encostas nos morros e na beira do rio do lugar.

De classe abastada, recém-formada, tinha conseguido aquele estágio para colocar em prática o que aprendera na Faculdade. Era a primeira vez que trabalhava. Ao se colocar sob a cobertura de palha, sentiu um cheiro que lhe provocou asco e o sentimento de repulsa ante aquele chão úmido e desconfortável. Observou que a chuva vinha, de repente, grande e violenta e não era possível sair dali naquele instante.

Buscando pensar em alguma alternativa para se esconder do temporal, olhou ao seu redor e depois para o outro lado da rua, mas nada. Foi aí que percebeu que dentro do casebre havia alguém. Por entre as frestas de uma porta agonizante e quase despencando, viu uma mulher carregando nos braços um diminuto bebê embrulhado em trapos. Ele chorava num fio de voz fraca e sua mãe, na tentativa de fazê-lo acalmar, balançava o menino ao mesmo tempo em que ela também emitia um som mais próximo a um gemido de dor do que uma cantiga para ninar o seu filho.

A visão era forte: A miséria, feia e dolorosa, bem à sua frente e sem pedir licença para se mostrar, provocou nela um impulso irresistível de sair correndo pela rua sob a chuva que já se tornara um aguaceiro, com a água à altura dos tornozelos, dificultando seu deslocamento.

Correu e fugiu da visão mais dolorosa que já havia presenciado pessoalmente.

Naquela mesma noite, em sua casa, soube pelo noticiário da TV que duas pessoas morreram quando a enxurrada arrastou um casebre: Os corpos da mãe e do filho recém-nascido foram localizados bem mais adiante, presos em galhos e destroços do casebre, levados pela enchente.

Mais uma temporada de chuvas e a história se repete: Pessoas desabrigadas ou mortas, desamparo, desespero, doenças, a população pedindo socorro.

Do outro lado, na parte nobre da cidade, denúncias de dois anos, três anos ou mais se acumulam contra políticos e administradores que não se envergonham de embolsar as verbas destinadas à recuperação dos desastres passados. Junto com empreiteiros inescrupulosos, essas pessoas não se intimidam diante da lei e muito menos se compadecem do sofrimento de milhares de pessoas que são despojadas do quase nada que conseguiram juntar, da desesperança pela vida e da tristeza profunda que se abate sobre aqueles que estão sujeitos a tão perversas condições de sobrevivência.

Ano após ano, a situação é a mesma, e não se sabe de uma cidade, ou mesmo de uma pequena comunidade que foi beneficiada com verbas honesta e diligentemente aplicadas para minimizar o sofrimento das vítimas da falta da infra-estrutura necessária para dar continuidade de forma digna à vida que lhes é cabida.

Não existe notícia boa. A corrupção é tamanha, que o escândalo é imediatamente abafado por um outro que certamente acontecerá na semana seguinte. E na outra semana mais outro escândalo e assim sucessivamente. E todos eles minuciosamente investigados e denunciados pela imprensa (Claro, a imprensa, que, ao que parece, é a única instituição que promove ações do tipo). Dessa forma, de escândalo em escândalo, a vida segue.

E a estagiária? Bem, a estagiária, ficou muito triste uns dias, mas depois esqueceu. Tratou de ser feliz.

Mãe e filho? Nunca mais ninguém se lembrou deles.

Vida em família

 
Seu Osmar é um sujeito acostumado com a lida nas grandes obras civis pelo interior do Brasil. Trabalhou em vários estados brasileiros supervisionando a construção de estradas, barragens, açudes e pontes. Com os cabelos fartos e totalmente brancos, tem a pele tostada pelo Sol depois de tantos anos de vida a céu aberto. Está na mesma construtora desde muito tempo e é querido por todos, se bem que de vez em quando algum engenheiro novato, ainda não acostumado com seus modos, se aborrece com sua intromissão e com a franqueza com que fala sobre o resultado de um trabalho malfeito ou mal acabado: “Ficou uma porcaria. Eu te avisei. Depois, não me venha pedir para consertar...”.

Ou então, quando alguém cai no seu agrado, “... escuta o menino, ele é bom, tem futuro na firma”.

Nasceu no Espírito Santo, mas vive em Minas desde sua juventude. Hoje, com 79, pensa em se aposentar. “Mas só um pouco” – diz, “porque ainda tem uns troços aí que preciso resolver antes de parar”.

É que o Seu Osmar está enrolado com suas três mulheres. A esposa descobriu que ele tem duas amantes e a situação pegou fogo.

O caso aconteceu assim: Por causa da natureza do trabalho que executa, Seu Osmar passa grande parte do tempo longe de casa e mora em alojamentos de obra, isolado no mato. Daí, quando tem uma folga mais curta, o caminho é a cidade mais próxima, e em cada uma, um caso amoroso. Ao longo do tempo, ele acabou se envolvendo mais seriamente com duas delas. A primeira, uma antiga conhecida de sua família, e a segunda, uma mulher de 24 anos, morena bonita, cabelos pretos e lisos, “toda durinha” como ele mesmo se refere a ela, promoveu uma devastação em sua vida sentimental. Uma paixão fulminante que deixou Seu Osmar apaixonado. Ele a chama carinhosamente de Mozinho. Vivem num xodó constante. Parecem dois adolescentes que descobriram o amor.

O caldo entornou quando, numa folga maior, estando dormindo em casa, sua mulher atendeu a uma chamada no aparelho celular dele: Era Mozinho, toda dengosa e cheia de saudades, querendo um chamego.

Sua mulher ficou transtornada, só faltava espumar de tanta raiva. Chegou a pegar uma ripa de madeira para acertá-lo, mas como desgraça pouca é bobagem, instantes depois de finalizar a ligação com Mozinho, chegou uma mensagem instantânea da primeira amante dizendo que precisava dele porque o filho estava com febre e o estava levando para o hospital.

Seu Osmar acordou debaixo de ripadas. O pau comeu.

Foi um drama ver a mulher e as duas filhas chorando por causa da infame traição.

            - Valha-me Deus! O meu marido é um adúltero miserável. Tem duas amantes o sem-vergonha, e ainda por cima mais um filho... Desgraçado... Eu mato esse velho babão...

E quanto mais o Seu Osmar tentava explicar, mais se enrolava, e antes que a coisa ficasse pior, deu um jeito de arrumar a mala e saiu de fininho. Quando a mulher se deu conta, já estava longe, a caminho do canteiro de obras em Minas.

            - Como arrumar a situação? - Cismava consigo durante a viagem.

E ainda tinha o filho caçula doente no hospital. Não tivera tempo para telefonar para a primeira amante sobre o que havia acontecido com o menino. Resolveu ir para a casa dela antes de chegar ao alojamento da obra e contar sobre a existência de Mozinho e sobre o que estava acontecendo.

Que ele já era casado, a primeira amante já sabia. O que ela não sabia ainda é que havia mais uma mulher na história.

Depois de conhecer a situação do filho adoentado, acabou se traquilizando porque o garoto já estava medicado e em casa. Sua primeira amante era uma mulher com seus quase quarenta anos, mais madura, sempre calma e ponderada. Regulava com a idade da esposa.

            - É... a casa caiu. No fundo, no fundo, eu tinha certeza de que um dia essa história vinha à tona, mas até eu estou de queixo caído. Então você tem mais uma pra cuidar, né? Você é um velho muito safado. Eu devia te meter a mão na cara. Meter a mão, não, eu devia é te colocar um par de chifres também. Porque chifre de amante dói mais do que de esposa.

            - Mas como é que eu ia adivinhar que minha mulher ia pegar meu telefone?

            - Você tá é ficando gagá. E burro. Como você foi largar o telefone ligado enquanto dormia?

            - Eu esqueci... Dei bobeira...

Depois, mais calmos, ele disse:

            - Perdoa minha traição?

            - De que traição você está falando? Com a sua mulher ou com a segunda amante?

E respondeu baixinho, com cara de cachorro pidão:

- É que Mozinho me deixa doido.

Ela não aguentou a cara dele e caíram na risada.

Ele acabou dormindo por ali mesmo.

No dia seguinte, a primeira amante acordou disposta e decidida a conversar com a esposa porque, afinal, ela também tinha interesse em resolver logo o assunto. Tinha um filho para criar e não podia ficar no prejuízo.

Viajou para Marataízes e quando chegou, a esposa já tinha tomado suas próprias providências. Contara o caso para a família e dois de seus irmãos já estavam a caminho para achar Seu Osmar para dar-lhe um cacete e depois trazê-lo de volta.

As duas mulheres se encontraram, discutiram e brigaram, ficaram com raiva, choraram, soluçaram, mas, talvez por causa da diferença da idade delas com a da segunda amante, aconteceu o inusitado: Elas se entenderam e firmaram uma aliança contra Mozinho. É, a tal de Mozinho era a culpada pela desgraça da família, concluíram.

A maturidade contra a juventude.

Rapidamente, entraram em contato com os irmãos que haviam partido para buscar o traidor e informaram que haviam decidido por uma alteração nos planos iniciais. Agora, quem tinha que levar a surra era a outra amante, a mais nova.

Mas até hoje não conseguiram porque o Seu Osmar tratou logo de esconder Mozinho quando soube da intenção das duas.

Depois desse dia, a esposa e a primeira amante tornaram-se amigas e o caso foi abafado. Mas o Seu Osmar continua até hoje frequentando as duas. E o melhor, o filho mais novo foi aceito na família: Agora, mesmo em casas separadas, a família é composta de duas esposas e três filhos.

Tudo acabou bem, mas ninguém toca no assunto. Elas sabem quando o Seu Osmar está na casa de cada uma, mas fingem não saber. O silêncio delas é a prova da cumplicidade que estabeleceram.
A vida entrou na normalidade.


Dia desses, quando eu conheci o Seu Osmar, ele me falou que sua vida está muito boa, mas por causa da jura contra Mozinho, até hoje ele a mantém escondida numa casa que alugou, e ainda faz uma espécie de previdência privada para ela, depositando todo mês uma quantia na sua Caderneta de Poupança.

            - Vai que aquelas duas malucas resolvem me matar... Mozinho ia ficar desamparada, né?

A casa na montanha

 
Brindemos ao pão do dia, ao vinho do ano e aos amigos de 30 anos.

Hélio José Mannato.

É sexta-feira e anoitece, o trânsito está tumultuado com tantos carros buscando seus destinos, indo ou retornando, todos buscam chegar a algum lugar nos labirintos da cidade. De passagem, uma parada no supermercado e outra parada na padaria para abastecer as necessidades para o fim-de-semana. Os de comer e os de beber para a reunião entre os amigos na casa na montanha. Com a expectativa de juntar oito pessoas, quatro casais, para uns dias de relaxamento do corpo e o desfrute da alma, no clima ameno de Domingos Martins, a correria para arrumar as tralhas no carro é intensa.

Na estrada, já à noite, o trânsito diminui na medida em que se aproxima do destino. De Vitória a Campinho, e em seguida Soído.

Ao desligar o carro na chegada, o que se ouve unicamente são os ruídos da mata. A bicharada se prepara para enfrentar a noite escura. Uma pausa para esticar e espreguiçar o corpo. Respirar fundo o ar frio da altitude acima dos 900 metros e sentir a integração com a natureza.

A casa construída em madeira é aconchegante e convida para a desaceleração do ritmo frenético do trabalho e das coisas da vida cotidiana durante a semana que passou. Arrumar nos armários as coisas trazidas, abrir o registro do gás do fogão, ligar a geladeira, verificar a lenha para a lareira que será acesa mais tarde, conferir mais uma vez os vinhos que serão minuciosamente degustados (bebidos mesmo, todos).

Relaxar e aproveitar a calma.

No avançar das horas, as conversas vão se tornando descontraídas e o riso torna-se mais fácil. Até que vem o sono.

Pela manhã, o Sol entra pelas frestas das cortinas e chama a todos para a mesa do café. Vai começar mais um dia de pura alegria e confraternização entre amigos.

A varanda em frente à floresta, que revela seus verdes em múltiplas tonalidades, proporciona uma vista ampla para o vale onde é possível distinguir uma casa ali, outras acolá, quase sempre escondidas debaixo da copa das árvores.

A turma se espalha. Uns fazem caminhada pelas ruas do parque e outros ouvem música e conversam. Há também um que madrugou e acordou antes de todos, desceu à cidade e na volta, trouxe frutas e alguns complementos para o almoço. Trouxe também o jornal.

A bandeja com a comida para os passarinhos, sementes e algumas frutas, é colocada no beiral da varanda e começa o espetáculo: As barulhentas maritacas em bando, anus, canários, sete cores, caga-sebos e gaturamos se revezam na disputa de espaço para bicar tudo. E a confusão continua assim até a chegada da macacada que acaba por monopolizar o comedouro. Mas quando eles vão embora, a passarada volta.

Os beija-flores, também aos montes, sugam a doce água das flores dos bebedouros de plástico pendurados nas vigas do telhado da varanda.

A manhã avança e as atividades na cozinha já começaram. Hoje é dia de lombo suíno preparado com esmero e acompanhado de várias outras coisas. Um trabalhão para o mestre cuca da vez. Mas sempre tem gente ajudando.

Depois de servido, quem não participou no preparo do almoço agora lava pratos e panelas. A ordem é deixar tudo limpo e a cozinha arrumada. Pronta para outra jornada.

O papo continua alegre, mas as pálpebras insistem em se fechar e, porque ninguém é de ferro, uma boa soneca na tarde morna sempre vai bem.

Lá pelas tantas, enquanto o sol vai se escondendo atrás da montanha, a mesa do café da tarde está posta e é um festival de cores e sabores: Bolos de laranja, de cenoura, de chocolate, muchá de canjiquinha, queijos, pães da Dona Ana, café e leite.

Mas não dá pra comer muito porque à noite tem mais: Capelletti de frango. Ah! Uma delícia.

E assim a vida continua em prazerosos momentos entre amigos.

Agora as cigarras começam a cantar. É sinal que amanhã será mais um dia de Sol.

Consulta médica

 
Duas coisas acabam rapidamente com a vida: a tolice e o vicio.

Uns perdem a vida por não saber cuidá-la e outros por não querer fazê-lo.

Assim como a virtude é sua própria recompensa, o vício é o seu próprio castigo.

Quem vive no vício encontra um fim duas vezes mais rápido: acaba com a vida e com a honra.

Enquanto quem vive na virtude nunca morre.

A integridade de espírito é transmitida ao corpo:

uma boa vida é plena não só em intensidade, mas também em extensão.

Baltasar Gracián

A doutora ouviu o relato do homem à sua frente. Fez algumas perguntas e em seguida passou os olhos nos resultados dos exames que ele havia feito anteriormente por solicitação de outros médicos. Ele estava ali em frente da endocrinologista por orientação do cardiologista e do urologista, a quem havia feito outras consultas no decorrer do seu check up médico anual. O consultório possuía uma iluminação difusa, o condicionador de ar mantinha uma temperatura agradável e a sala proporcionava um conforto acústico que estabelecia um ambiente de tranquilidade e calma. A voz da médica, da mesma forma, serena e baixa, incentivava a uma conversa sem pressa e descontraída.

            - Você sabe que precisa emagrecer, não sabe?

            - Sim. E muito.

            - Observe a imagem aqui na ultrassonografia. O seu fígado está coberto por gordura.

Sedentário praticante e convicto, ele ouvia as explicações da médica com atenção e concordava com tudo. Afinal, ao longo de seus 54 anos de vida, já havia feito várias dietas de emagrecimento e um sem número de exames clínicos e consultas daquele tipo.

Já emagrecera várias vezes, mas sempre tornava a engordar, como uma verdadeira sanfona. Em uma das vezes que se submeteu a uma dieta, conseguiu baixar seu peso em 16 quilos, uma verdadeira façanha. Mas durou pouco. Sem atividade física regular e guloso, tornou a mexer o ponteiro da balança no sentido horário.

            - Sua glicose está no limite.

Tudo o que ela falava ele já sabia.

            - Se você não se cuidar, em breve estará com diabetes, e aí, meu caro, tudo vai ficar difícil em sua vida.

Sim, ela tinha razão. Era preciso mudar de vida para que a doença não o mudasse depois para pior.

            - São grandes as chances de melhorar seu quadro atual, mas você tem que mudar sua rotina, se não quiser ultrapassar a linha entre a saúde e a doença.

A médica então mostrou imagens do abdome aberto com destaque para o fígado gorduroso. Explicou o funcionamento de tudo.

            - No momento, não há necessidade de medicação alguma. O remédio para o seu caso é somente atividade física e alimentação adequada, tanto em qualidade quanto em quantidade.

Ele já sabia daquilo tudo, e o que mais vinha a seguir.

            - Tenho aqui uma tabela para você seguir uma dieta.

E foi relatando o que podia e o que não podia comer, isso em substituição daquilo, se ficar enjoativo repetir tantas vezes, coma aquilo outro. Etc, etc, etc...

            - Mas faça exercícios físicos, pelo menos três vezes na semana.

Grande novidade, pensou. Mas como arranjar tempo? Com a vida que eu levo, onde vou arrumar um espaço para andar, correr, nadar, pedalar?

            - Não precisa mais do que caminhar, mas caminhar forte. 40 a 50 minutos cada vez.

Sabia que tinha que fazer isso, sabia que não dava mais para adiar a decisão. Tinha consciência que se instalara nele o processo de envelhecimento e que não conseguia mais fazer coisas com facilidade. Calçar as meias já não era mais tarefa fácil, subir um lance de escada o obrigava a uma pausa, carregar pacotes era praticamente impossível.

            - Então, está decidido a mudar de vida?

            - Sim – repondeu sem grande convicção, mas resignado – Vou ter que arrumar um tempo para isso.

Vai ser complicado. E meus livros? Como vou conseguir dar conta de lê-los se vou para a ginástica?

            - Retorne aqui a um mês que quero ver como você está.

            - Obrigado, doutora.

Saiu preocupado e no caminho para casa foi pensando na rotina que teria que se impor.

E a preguiça que o impedia de se mexer? Essa era a pior parte.
Concluiu que qualquer horário depois do expediente de trabalho não seria bom. Tinha muita coisa para fazer à noite. Os compromissos com a Ordem, os livros, os textos, trabalhos levados para casa. É, não seria possível à noite.

No outro dia, às quinze para as seis da manhã, com um frio danado, tava ele na academia fazendo sua inscrição.

            - Que jeito, né?

Intolerância

 
As duas mulheres estavam almoçando numa mesa ao fundo do restaurante self service.

O ambiente estava relativamente calmo e sem tumulto àquela hora. As pessoas defronte a seus pratos comiam absortas em seus pensamentos, pareciam estar ausentes no recinto. Cada um em seu próprio mundo. Ninguém se importava ninguém.

As únicas que conversavam eram mãe e filha, e esta, visivelmente aborrecida.

            - Quando eu te falei que não queria ir, você não acreditou em mim.

            - Mas filha, é tua tia. É preciso ajudá-la porque está passando maus momentos. Sua doença a impede de sair de casa. Precisamos manter nossa família unida.

            - Já disse não.

Elas procuravam manter a conversa num volume o mínimo possível, mas o tom da voz denunciava que a situação não ia bem. A moça demonstrava uma raiva brutal em sua expressão.

            - Eu não quero me encontrar com a prima, já disse, o que ela aprontou comigo não tem desculpa.

            - Tá certo, mas o que a tia tem com isso?

            - Ela pode até não ter nada com a história, mas a infeliz da filha dela, nem que me peça de joelhos, o que não acredito que faça, eu volto na casa dela. E depois, só de pensar na possibilidade de olhar para ela... Esquece.

            - Você sabia que tua prima também tem queixas contra ti?

            - Não quero saber mais nada. Não quero falar mais sobre isso.

As primas estavam em crise. Quem estava no restaurante nunca soube o motivo da briga. Ficou a impressão de um caso insolúvel, uma amizade perdida, o desamor e a separação. Uma atribuía à outra a culpa pelo conflito entre elas, uma história que surgiu e se espalhou na família e entre os amigos. Ambas ficaram mal.

            - A filha ainda reclamou com a mãe: - Não bastasse tudo o que aconteceu, ainda por causa dela perdi o meu emprego... Cretina!

            - Mas, minha filha, você é nova. Releva.

            - Chega, mamãe, não quero mais falar sobre isso.

O restante do almoço aconteceu em silêncio de sepultura. O clima pesado naquele momento não permitia mais nenhuma palavra.

Terminaram o almoço, pagaram e saíram. Tristes.

O tempo passou e anos depois, o que sobrou de tudo entre elas foi a mágoa, tão distante, tão profunda, mas também tão real e tão presente no fundo da alma. Como uma mancha escura e indelével contrastando num lençol claro: Por maior que seja o pano branco, a vista sempre se volta para a nódoa.

Depois do episódio e por causa da intolerância mútua, nunca mais se falaram. Nem mesmo nas duas vezes em que tornaram a se encontrar: Ela no enterro da tia, e a prima no enterro do seu pai.

É proibido morrer

 
Guarapari é um País calmoso e hereditário onde se respira o ar por conseqüência,

vindo de um lado pelo oceano marital e de outro lado pelo oceano matagal.

Vereador Belarmino Sant' Ana, na cerimônia inauguração do cemitério da cidade em 1916.

O caso se passou em uma pequena cidade localizada na região da Campania, Sul da Itália, e parece surreal pela sua estranheza e pelo aparente delírio de quem o praticou, um atentado ao bom senso e à razão. Mas tem explicação: Pois não é que em Falciano Del Massico é proibido morrer?

É isso mesmo. O presidente da Câmara Municipal local, Giulio Cesare Fava, médico de profissão, mandou publicar a Portaria Nº 9, de 5 de março de 2012, que, segundo ele, “é provocativa”. Nela, fica estabelecido que “... é proibido para os moradores ir além das fronteiras da vida terrena e passar para o além”.

-          Ma come non si muore, Signore Fava?

Resgatando a história, o começo desse imbróglio vem de meados da década de 1960 quando Falciano Del Massico perdeu seu cemitério para a vizinha Carinola, da qual se emancipou politicamente. Mas não se emancipou o suficiente para enterrar os seus próprios mortos.

Mas os defuntos de Falciano continuaram sendo enterrados em Carinola até que a capacidade do cemitério esgotou. Como não houve um acordo para viabilizar a construção de um novo em Falciano, a solução do presidente da Câmara não tardou: É proibido morrer.

Motivo de riso e espanto, o presidente Fava tenta justificar sua iniciativa dizendo que sua ação tem o objetivo de sensibilizar as autoridades da província de Caserta, onde se encontra a pequena Falciano, uma cidade de aproximadamente 4 mil habitantes a cerca de 50 km ao Norte de Nápoles.

E o pior é que duas pessoas já morreram por lá depois da lei.

Antonio Scarano, antigo morador de Falciano, declarou “... fico imaginando quantas pessoas pedirão cidadania aqui, já que não se pode morrer. É um lugar lindo e as pessoas podem ter uma vida muito longa, uma vida eterna”.

Essa história faz lembrar o prefeito Odorico Paraguaçu, personagem do romancista baiano Dias Gomes. Mas de forma diversa, ele passou todo o seu mandato tentando inaugurar o cemitério que havia construído na cenográfica Sucupira. No final da novela, ele próprio é quem foi enterrado lá, morto pelas mãos do temível cangaceiro Zeca Diabo.

Mas, o que poucos sabem, é que a novela de Odorico aconteceu mesmo na vida real, e foi em Guarapari, em terras capixabas. Reza a lenda que nos idos de 1916, dez anos depois de construído, o então prefeito João Batista de Almeida não conseguia inaugurar o cemitério da cidade por falta de morto. Por que? Simples, dizem os moradores do lugar: Guarapari é a Cidade Saúde! A inauguração só se deu quando o prefeito trouxe um defundo emprestado da vizinha Benevente, atual Anchieta.

Foi uma festa.

E antes que se esqueça, e absurdos à parte, o prefeito lá na Italia já mandou avisar que os dois mortos que desrespeitaram a lei em Falciano Del Massico não serão punidos.

Ah! Ainda bem, né...

Sem assunto

 
O tempo é como o rio onde banhei o cabelo de minha amada

Água limpa que não volta, como não volta aquela antiga madrugada.

Edu Lobo

- Boa tarde.

- Boa...

Silêncio.

- Calorão, heim!

- É...

...

- Vai chover.

- Ouvi dizer, vai sim.

- O noticiário agorinha mesmo falou que vai cair um temporal.

- Então Vila Velha vai inundar.

- É. Como sempre.

- Chegamos.

- Ciao.

- Té...

Esta calorosa conversa durou o tempo para o elevador descer do nono andar até o térreo do prédio. Eles são vizinhos há mais de dez anos, mas não se conhecem, sabem os seus nomes por ouvir dizer. Cumprimentam-se de vez em quando no hall de entrada. Encontram-se ocasionalmente em reuniões do condomínio. Nunca conversaram.

Quando se esbarram, a conversa é mínima e em torno do clima ou do tempo, quando não, os dois. Sempre em tom de reclamação.

Se chove, reclamam porque choveu. Se faz frio ou se faz calor reclamam assim mesmo.

Quando não é o clima, é o tempo, ou a falta dele:

- O dia passou rápido, né? Nem vi o tempo passar! Quando dei por mim, não tinha feito nada e já era hora de voltar para casa.

- Pois para mim o dia hoje demorou uma semana, como custou passar...

O convívio em sociedade acaba se resumindo em encontros casuais, trombadas improváveis dentro do caos das cidades, rápidos e totalmente desprovidos de qualquer busca de interação entre as pessoas. Na eventualidade de um encontro num elevador ou em outro lugar fechado, obriga o senso de civilidade às pessoas uma conversação qualquer, para mostrar tão somente cordialidade, e às vezes nem isso.

As pessoas não se dão conta, ou fazem questão de não dar importância, que o tempo passa, inexoravelmente. E é igual para todos. Então por que falar dele de maneira recorrente?

Da mesma forma, reclamar do clima: Ora, chove porque tem que chover, e estia porque tem que estiar. Como já disse o Chico uma vez, “nuns dias chove, noutros dias bate sol”.

Então, e daí se chove ou se não chove? E daí se faz calor ou faz frio? Vista um casaco ou tire a roupa, conforme o caso. Saia mais cedo para fazer com menos pressa. Programe-se.

Ao invés de olhar o mundo com uma visão mais otimista das coisas, buscar entender que a natureza possui movimentos próprios e que nós é que devemos nos adaptar, não, parece que as pessoas criam o hábito de reclamar. É como um vício. Mas, como mudar uma pessoa assim? Como mandar que desligue a TV, leia mais, aprenda mais, converse mais? Como convencê-la tirar as lições que o frio traz? Ou que o calor traz?

Talvez a chave da libertação desse vício seja a escolha consciente do que pensar. E ao expressar seu pensamento, buscar o caminho da assertividade. Nunca a reclamação injustificada.

E assim, no curso da vida, como as águas que passam num rio, às vezes calmas, às vezes em turbilhão caudaloso, mas seguindo sempre em frente, se cada um aproveita bem o seu tempo e convive com as pessoas e as paisagens de sua viagem, viveu bem; senão, terá perdido a oportunidade. Sua existência terá passado em reclamações e lamúrias.

Se donner un coup de pied aux fesses

 
Dê a si mesmo um chute na bunda.

O mestre Houaiss nos ensina que galicismo é o modo peculiar de falar ou escrever próprio do povo francês. Ou seja, os franceses, assim como os cidadãos em cada país pelo mundo possuem características próprias para se expressar, e como é natural, carregando modismos e gírias locais. Muitas das vezes, o que um povo fala, entende e aceita como corriqueiro, é incompreensível ou não é admissível ou mesmo ofensivo em outros países.

Junte-se a isso, momentos de tensão e interpretações erradas.

Pois é isso o que aconteceu sábado passado em Londres, durante uma entrevista coletiva dada pelo secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke. Preocupado com o atraso generalizado nas obras para a realização da Copa do Mundo em 2014, suas palavras, se donner un coup de pied aux fesses, chegaram aos ouvidos das autoridades brasileiras, especialmente às ligadas diretamente aos preparativos do evento, como uma ofensa grave, a ponto de o Ministro dos Esportes informar oficialmente à FIFA que Valcke não seria mais aceito como interlocutor entre o Governo e aquela entidade.

Após sua entrevista em Londres, a coisa foi divulgada como: O Brasil precisa levar um pontapé na bunda para acelerar as obras necessárias.

Embora haja relatos de repórteres presentes que garantam que Valcke tenha se expressado em inglês, e não em francês, o que permanece é o fato: Ele falou, e isso é inequívoco. É certo também que usou uma expressão comum da França aplicada para situações onde uma pessoa, por exemplo, busca se dar uma injeção de ânimo. Seria algo traduzido como “dê a si mesmo um chute na sua bunda”.

O episódio acabou provocando uma reação exagerada de descontentamento entre os ufanistas de ocasião aqui no Brasil.

Passado o choque inicial, o senhor Valcke e o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, vieram a público se explicar na tentativa de desfazer o mal-estar. O caso até o momento ainda não está resolvido.

Mas o povo brasileiro precisa refletir:

- Será que o secretário-geral está errado em sua declaração?

Embora suas palavras, admitamos, não estejam diplomaticamente adequadas no contexto da língua portuguesa, estão na francesa. E ele não faltou com a verdade, visto que há cronogramas de obras que apontam muitos atrasos.

Por outro lado, o sentimento de agressão percebido pelos brasileiros, não seria uma reação de quem foi pego de surpresa e não gosta de levar pito?

É preciso pensar, refletir e, principalmente, agir. Antes que seja tarde e o tempo dê realmente a razão ao secretário-geral.

Mas será difícil criar alguma racionalidade nesse turbilhão de declarações, desmentidos, explicações e entrevistas. Pelo que tradicionalmente se vê no Brasil, a correria vai mesmo acontecer quando estivermos a poucos minutos do pontapé inicial do jogo de abertura. Se as coisas se mantiverem no ritmo atual (e normal), tudo vai ficar para última hora: Contratações emergenciais e sem licitação; Planejamento inadequado (ou a falta dele); Obras mal-feitas e mal-acabadas; A grana rolando solta, e por aí em diante em um enredo manjado e bem conhecido de falcatruas, corrupção, desvios, gente se apoderando de dinheiro público, e depois mais adiante, e só lá bem adiante mesmo, é que surgirão eventuais e esparsas denúncias, investigações, e nenhuma prisão. E aí virão os políticos fazendo seus discursos inflamados com promessas de esclarecimentos e criação de CPI, quando o leite estiver derramado e perdido.

Tento compreender a indignação do ministro Aldo Rebelo porque, afinal, receber críticas em público não é bom, ainda mais vindas de alguém estrangeiro. Mas são críticas que deveriam ser assimiladas como um solavanco no ânimo de quem cuida desse tão grandioso e importante projeto para o Brasil.

Acredito mesmo que esse acontecimento deveria servir de mote para acordar a essa gente toda e levá-la a dar a si mesma um pontapé na bunda, para fazer o que tem que ser feito e já.

O padre e o sabiá

 
Saindo de um restaurante onde havia almoçado, aguardava em pé na calçada enquanto minha mulher olhava umas sandálias dentro de uma loja. Foi quando ouvi uns fiapos de uma animada conversa entre uns sujeitos grisalhos que estavam ali por perto. Pelo aspecto e pelas roupas, parecia que voltavam da praia.

Diziam coisas e davam risadas. Foi quando um deles perguntou aos demais “Alguém aí já se confessou a um padre?”.

Nem esperou a resposta, já foi entabulando: - Eu já, uma vez só na vida, e me dei mal.

- O que houve? - perguntaram.

- Na época de minha adolescência, havia uma moça na minha cidade que gostava muito de passarinho. Eu era maluco por ela. Vivia em volta dela, mas ela se fazia de difícil o tempo todo, não queria saber de papo comigo.

- Então tive a idéia de capturar um canarinho e dar para ela. E foi o que fiz. A partir daí começamos a nos aproximar mais e começamos o namoro.

- E o que tem o confessionário com essa história?

- Calma que eu chego lá – disse - e continou:

- Mas o que eu queria mesmo era transar com ela. Eu tentava, ela se esquivava. Só queria saber de beijinhos. Era um tal de passear de mãos dadas que me dava nos nervos. Ela continuava firme: Não me dava oportunidade de jeito nenhum.

- Um dia, já de saco cheio, eu reclamei: Já havia um tempão que nós estávamos juntos e nada. Minha lamentação tinha um tom de chantagem. Dizia que, apesar de gostar muito, se ela não resolvesse logo, eu ia embora, e outras coisas desse tipo.

- Mas e o padre nessa história? – insistiram.

- Pois é. Vai daí que ela acabou dizendo que topava desde que eu pegasse para ela um sabiá. Mas tinha que ser um que vivia perto de sua casa. Não podia ser outro. Tinha que ser aquele e pronto.

- Não tive dúvidas: Aquele sabiá ia ser pego de qualquer maneira. Preparei um alçapão com alpiste e me coloquei na tocaia.

- Demorou muito. E parece que a moça se divertia com isso. Dias e dias esperando ele chegar perto, buscando entender sua rotina, mas estava difícil. Diariamente, depois da escola, ficava na campana.

- Até que um dia, o bicho chegou mais perto, pulou em volta, sassaricou e acabou entrando na arapuca.

- Soltei um grito de satisfação. Nem tanto pela expectativa de meu intento com a moça, mas pela conquista depois de vários dias de paciente espreita.

- Levei o penoso para a moça. Ela não teria mais como negar nada para mim. Assim que entrei no seu quintal e a avistei, já fui anunciando a conquista.

- Entreguei o sabiá, mas como a empregada da casa estava por perto, disfarçadamente, eu disse que estava pagando a prenda solicitada pelo prêmio prometido.

- Tá bom, mas primeiro, temos que colocá-lo numa gaiola, - ela disse.

- E foi aí que começou a segunda fase da enrolação. Depois da gaiola, disse que era preciso esperar para ver se não ia morrer por causa da prisão, depois disse que ele estava meio adoentado, em seguida ela própria caiu de cama, noutro dia havia a mãe que não largava do pé dela, depois, e depois, e depois sempre histórias para fugir do trato.

- Daí você não conseguiu o que queria?

- Então, a coisa foi indo até que ela disse que o sabiá havia fugido, mas que achava que tinha sido sua mãe que o havia soltado, e que não havia mais trato porque não havia mais passarinho.

- Lascou...

- Fiquei passado, aborrecido, zangado porque percebi somente naquele momento que ela havia me enganado o tempo todo. Ela tinha feito aquilo de caso pensado. Tinha feito hora com a minha cara. Rompi o namoro.

- Com raiva, começei a pensar numa vingança. Passado um tempo, resolvi sumir com o canário que havia pego para ela antes do sabiá.

- Isso mesmo que ia fazer. Num dia à tarde, enquanto todos estavam dentro de casa, pulei o muro e rapidamente peguei a gaiola onde estava o canarinho. Longe dali, no mato, eu o soltei. Ele estava assustado e desacostumado com a liberdade. Ficou desorientado uns instantes, mas logo sumiu de minhas vistas. Completei minha vingança quebrando a goiola. Voltei satisfeito para casa.

- Não passou muito tempo, a dor na consciência começou aparecer quando soube que a moça estava triste com o sumiço do canário. Soube também, através de colegas de escola, que ela achava que havia sido eu o responsável pelo sumiço do passarinho.

- Acabei encontrando com ela no pátio da escola e tocamos no assunto. Ela brigou comigo porque tinha certeza que eu havia matado o bichinho. Eu não desmenti e nem disse o que fizera. Fiquei calado. Eu ainda gostava dela.

- Foi aí que ela disse em tom severo: "Ou você vai se confessar com o padre no domingo e conta para ele que matou o passarinho ou eu nunca mais falo contigo".

- E ainda completou quase num sussurro: "... e aquilo que você tanto quer, néris di pitibiriba. Bau-bau. Tá fechado para nunca mais".

- Surpreso com a entonação de suas palavras, como uma verdadeira revelação, dei um sorriso de satisfação só em pensar nas possibilidades.

- Mas logo em seguida caí na realidade: Tinha de contar ao padre que havia agido por vingança por não ter conseguido os prazeres libidinosos de certa moça do lugar. Mas não podia dizer o nome dela, é claro, porque, afinal de contas, ela era conhecida por todos e não podia cair na boca do povo, mesmo que esse povo quizesse dizer apenas o padre. "Não ia ficar bem para ela", conclui.

- E assim, com a promessa renovada, não tive dúvidas, contei tudo para o padre no domingo seguinte, mentindo que havia matado o canarinho, como havia mandado a moça.

- Foi a pior coisa que fiz na minha vida. Recebi a penitência do padre e a cumpri todinha. Além das tantas Ave-Marias e tantos Pai-Nossos, fui obrigado a assistir à missa aos domingos por longos três meses. Não foi fácil.

- Aí você finalmente conseguiu ...

- Que nada, consegui nada. Alegando que eu ainda estava em estado de penitência, e sendo ela a motivação e o objeto do pecado, eu tinha de esperar até a absolvição final. Novamente fui enrolado.

- Mas o pior de tudo, é que a história caiu mesmo na boca do povo. Minha mãe soube do acontecido e falou para o meu pai. Foi um escândalo no lugar. A família da moça se fechou um tempão em casa e se afastou do convívio com as pessoas, até que um dia eles se mudaram da cidade.

- Até hoje não sei como as pessoas ficaram sabendo do caso, não consegui nada com a moça, não confio em padre e tenho raiva de passarinho.

Verão em Guarapari

 
Céu, tão grande é o céu.

E bandos de nuvens que passam ligeiras, pra onde elas vão, ah, eu não sei, não sei.

Tom Jobim e Aloysio de Oliveira

As praias de Guarapari são lindas e é uma delícia passear em sua orla. Nessa época, a cidade recebe uma brisa gostosa e faz exaltar nas pessoas um sentimento de bem-estar, como um convite para contemplar sua bela natureza e conviver com pessoas. É assim que eu me sinto lá no verão.

Ontem à noite estive no Kibe Lanches, bem no centro da cidade, e comi as especialidades da gastronomia árabe, acompanhadas de cerveja gelada. Aliás, cervejas, porque não dá pra beber só umazinha nesse calor. Tem que ser um monte. Estava muito bom.

Em companhia de minha mulher e de casais amigos, o assunto na mesa girou em torno da Guarapari dos dias atuais em comparação com o que ela era no tempo de nossa juventude. Como todos os presentes eram de faixa etária parecida, o papo fluiu numa descontração só possível entre amigos da vida inteira: Boas lembranças, pessoas queridas, banhos de mar, moquecas, brincadeiras e risadas.

Já fomos ao Kibe Lanches inúmeras vezes, em todas as épocas do ano. Nunca foi preciso pegar senha para ser atendido. Mas ontem foi necessário. É o sinal dos tempos.

Jorge Chamon, o proprietário, apareceu, e como sempre, cumprimentou amigavelmente a todos e foi efusivamente festejado por alguns mais entusiasmados no lugar.

Esperamos com paciência chegar nossa vez e enquanto isso, bebemos vários copos da loura, em pé mesmo e encostados nos carros estacionados na rua, e um tempão depois, fomos chamados pelo garçom. Nessa altura a animação era geral.

A grande novidade da noite foi quando Juninho anunciou que ia pintar sua vasta cabeleira branca. Ele disse que queria fazer isso porque se sentiu envelhecido depois que uma empregada no supermercado disse que “... a fila para idoso é outra”.

- Pô, eu não sou idoso! - disse protestando, - ela ficou olhando pra mim com ar meio incrédulo, meio sem graça, por ter cometido a gafe.

O papo continuou descontraído pela noite.

No dia seguinte, na praia, apareceu ele todo orgulhoso com suas madeixas renovadas, incluindo as sombrancelhas em acaju. Acompanhado de Beth, sua mulher, perguntava a todos se tinham gostado do novo visual. Era uma alegria só quando as pessoas elogiavam. Comentou que ia voltar ao supermercado e passar em frente da moça que o tinha chamado de velho para se mostrar e provar que não era idoso.

Mais tarde, na hora do almoço, Roberto contou uma história que ele jura ter acontecido de verdade, mas tenho cá minhas dúvidas. Serviu foi para todos darem boas risadas. Disse ele que numa tarde de sábado, no início dos anos 1960, um sujeito saiu do mercado da Vila Rubim, em Vitória, com uma sacola cheia de compras e um pato ainda vivo. Passando em frente ao cinema Santa Cecília, bem antes do tempo em que foi transformado em templo religioso, resolveu entrar. Como o porteiro não permitiu o seu acesso por causa do bicho, ele resolveu enfiá-lo dentro da calça. Abotoou seu paletó (nessa época todo mundo usava peletó) para disfarçar, comprou o ingresso e entrou para assistir La Dolce Vita, de Federico Fellini.

Durante a exibição, enquanto Marcello Mastroianni e Sylvia Rank desempenhavam maravilhosamente seus papéis através dos cartões postais de Roma, o bicho começou a ficar muito agitado. Para acalmá-lo, o sujeito abriu a braguilha da calça, permitindo ao pato mexer a cabeça e respirar livremente. Como estava comendo pipoca, acabou alimentando o penoso ali mesmo, naquela situação.

Nessa altura, o pessoal ao seu lado já estava alvoroçado com a inusitada cena. Ele então se dirigiu a uma mulher que estava perto:

- A senhora nunca viu isso?

Ao que ela respondeu prontamente:

- Bem, moço, ver eu já vi, mas nunca comendo pipoca...

A gargalhada foi geral.