Se donner un coup de pied aux fesses

 
Dê a si mesmo um chute na bunda.

O mestre Houaiss nos ensina que galicismo é o modo peculiar de falar ou escrever próprio do povo francês. Ou seja, os franceses, assim como os cidadãos em cada país pelo mundo possuem características próprias para se expressar, e como é natural, carregando modismos e gírias locais. Muitas das vezes, o que um povo fala, entende e aceita como corriqueiro, é incompreensível ou não é admissível ou mesmo ofensivo em outros países.

Junte-se a isso, momentos de tensão e interpretações erradas.

Pois é isso o que aconteceu sábado passado em Londres, durante uma entrevista coletiva dada pelo secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke. Preocupado com o atraso generalizado nas obras para a realização da Copa do Mundo em 2014, suas palavras, se donner un coup de pied aux fesses, chegaram aos ouvidos das autoridades brasileiras, especialmente às ligadas diretamente aos preparativos do evento, como uma ofensa grave, a ponto de o Ministro dos Esportes informar oficialmente à FIFA que Valcke não seria mais aceito como interlocutor entre o Governo e aquela entidade.

Após sua entrevista em Londres, a coisa foi divulgada como: O Brasil precisa levar um pontapé na bunda para acelerar as obras necessárias.

Embora haja relatos de repórteres presentes que garantam que Valcke tenha se expressado em inglês, e não em francês, o que permanece é o fato: Ele falou, e isso é inequívoco. É certo também que usou uma expressão comum da França aplicada para situações onde uma pessoa, por exemplo, busca se dar uma injeção de ânimo. Seria algo traduzido como “dê a si mesmo um chute na sua bunda”.

O episódio acabou provocando uma reação exagerada de descontentamento entre os ufanistas de ocasião aqui no Brasil.

Passado o choque inicial, o senhor Valcke e o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, vieram a público se explicar na tentativa de desfazer o mal-estar. O caso até o momento ainda não está resolvido.

Mas o povo brasileiro precisa refletir:

- Será que o secretário-geral está errado em sua declaração?

Embora suas palavras, admitamos, não estejam diplomaticamente adequadas no contexto da língua portuguesa, estão na francesa. E ele não faltou com a verdade, visto que há cronogramas de obras que apontam muitos atrasos.

Por outro lado, o sentimento de agressão percebido pelos brasileiros, não seria uma reação de quem foi pego de surpresa e não gosta de levar pito?

É preciso pensar, refletir e, principalmente, agir. Antes que seja tarde e o tempo dê realmente a razão ao secretário-geral.

Mas será difícil criar alguma racionalidade nesse turbilhão de declarações, desmentidos, explicações e entrevistas. Pelo que tradicionalmente se vê no Brasil, a correria vai mesmo acontecer quando estivermos a poucos minutos do pontapé inicial do jogo de abertura. Se as coisas se mantiverem no ritmo atual (e normal), tudo vai ficar para última hora: Contratações emergenciais e sem licitação; Planejamento inadequado (ou a falta dele); Obras mal-feitas e mal-acabadas; A grana rolando solta, e por aí em diante em um enredo manjado e bem conhecido de falcatruas, corrupção, desvios, gente se apoderando de dinheiro público, e depois mais adiante, e só lá bem adiante mesmo, é que surgirão eventuais e esparsas denúncias, investigações, e nenhuma prisão. E aí virão os políticos fazendo seus discursos inflamados com promessas de esclarecimentos e criação de CPI, quando o leite estiver derramado e perdido.

Tento compreender a indignação do ministro Aldo Rebelo porque, afinal, receber críticas em público não é bom, ainda mais vindas de alguém estrangeiro. Mas são críticas que deveriam ser assimiladas como um solavanco no ânimo de quem cuida desse tão grandioso e importante projeto para o Brasil.

Acredito mesmo que esse acontecimento deveria servir de mote para acordar a essa gente toda e levá-la a dar a si mesma um pontapé na bunda, para fazer o que tem que ser feito e já.

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