A mulher, o menino e a
estagiária.
Lá pelas cinco da tarde o céu escureceu, e tão logo a moça
percebeu que ia chover, tratou de correr para buscar abrigo na varanda de uma pequena
casa na rua de um bairro distante. Casa de tijolos sem reboco e piso de barro
batido, pobre, suja e em ruína, desde a temporada de chuvas do verão passado,
estava cada vez pior. Era de se prever seu desabamento a qualquer instante.
A moça fazia um serviço de levantamento das condições de
conservação das habitações no bairro, a mando da empresa que havia vencido a
licitação para as obras contenção de encostas nos morros e na beira do rio do
lugar.
De classe abastada, recém-formada, tinha conseguido aquele
estágio para colocar em prática o que aprendera na Faculdade. Era a primeira
vez que trabalhava. Ao se colocar sob a cobertura de palha, sentiu um cheiro
que lhe provocou asco e o sentimento de repulsa ante aquele chão úmido e
desconfortável. Observou que a chuva vinha, de repente, grande e violenta e não
era possível sair dali naquele instante.
Buscando pensar em alguma alternativa para se esconder do
temporal, olhou ao seu redor e depois para o outro lado da rua, mas nada. Foi
aí que percebeu que dentro do casebre havia alguém. Por entre as frestas de uma
porta agonizante e quase despencando, viu uma mulher carregando nos braços um
diminuto bebê embrulhado em trapos. Ele chorava num fio de voz fraca e sua mãe,
na tentativa de fazê-lo acalmar, balançava o menino ao mesmo tempo em que ela
também emitia um som mais próximo a um gemido de dor do que uma cantiga para
ninar o seu filho.
A visão era forte: A miséria, feia e dolorosa, bem à sua
frente e sem pedir licença para se mostrar, provocou nela um impulso irresistível
de sair correndo pela rua sob a chuva que já se tornara um aguaceiro, com a
água à altura dos tornozelos, dificultando seu deslocamento.
Correu e fugiu da visão mais dolorosa que já havia
presenciado pessoalmente.
Naquela mesma noite, em sua casa, soube pelo noticiário da TV
que duas pessoas morreram quando a enxurrada arrastou um casebre: Os corpos da
mãe e do filho recém-nascido foram localizados bem mais adiante, presos em
galhos e destroços do casebre, levados pela enchente.
Mais uma temporada de chuvas e a história se repete: Pessoas
desabrigadas ou mortas, desamparo, desespero, doenças, a população pedindo
socorro.
Do outro lado, na parte nobre da cidade, denúncias de dois
anos, três anos ou mais se acumulam contra políticos e administradores que não
se envergonham de embolsar as verbas destinadas à recuperação dos desastres
passados. Junto com empreiteiros inescrupulosos, essas pessoas não se intimidam
diante da lei e muito menos se compadecem do sofrimento de milhares de pessoas
que são despojadas do quase nada que conseguiram juntar, da desesperança pela
vida e da tristeza profunda que se abate sobre aqueles que estão sujeitos a tão
perversas condições de sobrevivência.
Ano após ano, a situação é a mesma, e não se sabe de uma cidade,
ou mesmo de uma pequena comunidade que foi beneficiada com verbas honesta e
diligentemente aplicadas para minimizar o sofrimento das vítimas da falta da
infra-estrutura necessária para dar continuidade de forma digna à vida que lhes
é cabida.
Não existe notícia boa. A corrupção é tamanha, que o
escândalo é imediatamente abafado por um outro que certamente acontecerá na
semana seguinte. E na outra semana mais outro escândalo e assim sucessivamente.
E todos eles minuciosamente investigados e denunciados pela imprensa (Claro, a
imprensa, que, ao que parece, é a única instituição que promove ações do tipo).
Dessa forma, de escândalo em escândalo, a vida segue.
E a estagiária? Bem, a estagiária, ficou muito triste uns dias, mas depois esqueceu. Tratou de ser feliz.
Mãe e filho? Nunca mais ninguém se lembrou deles.
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