O padre e o sabiá

 
Saindo de um restaurante onde havia almoçado, aguardava em pé na calçada enquanto minha mulher olhava umas sandálias dentro de uma loja. Foi quando ouvi uns fiapos de uma animada conversa entre uns sujeitos grisalhos que estavam ali por perto. Pelo aspecto e pelas roupas, parecia que voltavam da praia.

Diziam coisas e davam risadas. Foi quando um deles perguntou aos demais “Alguém aí já se confessou a um padre?”.

Nem esperou a resposta, já foi entabulando: - Eu já, uma vez só na vida, e me dei mal.

- O que houve? - perguntaram.

- Na época de minha adolescência, havia uma moça na minha cidade que gostava muito de passarinho. Eu era maluco por ela. Vivia em volta dela, mas ela se fazia de difícil o tempo todo, não queria saber de papo comigo.

- Então tive a idéia de capturar um canarinho e dar para ela. E foi o que fiz. A partir daí começamos a nos aproximar mais e começamos o namoro.

- E o que tem o confessionário com essa história?

- Calma que eu chego lá – disse - e continou:

- Mas o que eu queria mesmo era transar com ela. Eu tentava, ela se esquivava. Só queria saber de beijinhos. Era um tal de passear de mãos dadas que me dava nos nervos. Ela continuava firme: Não me dava oportunidade de jeito nenhum.

- Um dia, já de saco cheio, eu reclamei: Já havia um tempão que nós estávamos juntos e nada. Minha lamentação tinha um tom de chantagem. Dizia que, apesar de gostar muito, se ela não resolvesse logo, eu ia embora, e outras coisas desse tipo.

- Mas e o padre nessa história? – insistiram.

- Pois é. Vai daí que ela acabou dizendo que topava desde que eu pegasse para ela um sabiá. Mas tinha que ser um que vivia perto de sua casa. Não podia ser outro. Tinha que ser aquele e pronto.

- Não tive dúvidas: Aquele sabiá ia ser pego de qualquer maneira. Preparei um alçapão com alpiste e me coloquei na tocaia.

- Demorou muito. E parece que a moça se divertia com isso. Dias e dias esperando ele chegar perto, buscando entender sua rotina, mas estava difícil. Diariamente, depois da escola, ficava na campana.

- Até que um dia, o bicho chegou mais perto, pulou em volta, sassaricou e acabou entrando na arapuca.

- Soltei um grito de satisfação. Nem tanto pela expectativa de meu intento com a moça, mas pela conquista depois de vários dias de paciente espreita.

- Levei o penoso para a moça. Ela não teria mais como negar nada para mim. Assim que entrei no seu quintal e a avistei, já fui anunciando a conquista.

- Entreguei o sabiá, mas como a empregada da casa estava por perto, disfarçadamente, eu disse que estava pagando a prenda solicitada pelo prêmio prometido.

- Tá bom, mas primeiro, temos que colocá-lo numa gaiola, - ela disse.

- E foi aí que começou a segunda fase da enrolação. Depois da gaiola, disse que era preciso esperar para ver se não ia morrer por causa da prisão, depois disse que ele estava meio adoentado, em seguida ela própria caiu de cama, noutro dia havia a mãe que não largava do pé dela, depois, e depois, e depois sempre histórias para fugir do trato.

- Daí você não conseguiu o que queria?

- Então, a coisa foi indo até que ela disse que o sabiá havia fugido, mas que achava que tinha sido sua mãe que o havia soltado, e que não havia mais trato porque não havia mais passarinho.

- Lascou...

- Fiquei passado, aborrecido, zangado porque percebi somente naquele momento que ela havia me enganado o tempo todo. Ela tinha feito aquilo de caso pensado. Tinha feito hora com a minha cara. Rompi o namoro.

- Com raiva, começei a pensar numa vingança. Passado um tempo, resolvi sumir com o canário que havia pego para ela antes do sabiá.

- Isso mesmo que ia fazer. Num dia à tarde, enquanto todos estavam dentro de casa, pulei o muro e rapidamente peguei a gaiola onde estava o canarinho. Longe dali, no mato, eu o soltei. Ele estava assustado e desacostumado com a liberdade. Ficou desorientado uns instantes, mas logo sumiu de minhas vistas. Completei minha vingança quebrando a goiola. Voltei satisfeito para casa.

- Não passou muito tempo, a dor na consciência começou aparecer quando soube que a moça estava triste com o sumiço do canário. Soube também, através de colegas de escola, que ela achava que havia sido eu o responsável pelo sumiço do passarinho.

- Acabei encontrando com ela no pátio da escola e tocamos no assunto. Ela brigou comigo porque tinha certeza que eu havia matado o bichinho. Eu não desmenti e nem disse o que fizera. Fiquei calado. Eu ainda gostava dela.

- Foi aí que ela disse em tom severo: "Ou você vai se confessar com o padre no domingo e conta para ele que matou o passarinho ou eu nunca mais falo contigo".

- E ainda completou quase num sussurro: "... e aquilo que você tanto quer, néris di pitibiriba. Bau-bau. Tá fechado para nunca mais".

- Surpreso com a entonação de suas palavras, como uma verdadeira revelação, dei um sorriso de satisfação só em pensar nas possibilidades.

- Mas logo em seguida caí na realidade: Tinha de contar ao padre que havia agido por vingança por não ter conseguido os prazeres libidinosos de certa moça do lugar. Mas não podia dizer o nome dela, é claro, porque, afinal de contas, ela era conhecida por todos e não podia cair na boca do povo, mesmo que esse povo quizesse dizer apenas o padre. "Não ia ficar bem para ela", conclui.

- E assim, com a promessa renovada, não tive dúvidas, contei tudo para o padre no domingo seguinte, mentindo que havia matado o canarinho, como havia mandado a moça.

- Foi a pior coisa que fiz na minha vida. Recebi a penitência do padre e a cumpri todinha. Além das tantas Ave-Marias e tantos Pai-Nossos, fui obrigado a assistir à missa aos domingos por longos três meses. Não foi fácil.

- Aí você finalmente conseguiu ...

- Que nada, consegui nada. Alegando que eu ainda estava em estado de penitência, e sendo ela a motivação e o objeto do pecado, eu tinha de esperar até a absolvição final. Novamente fui enrolado.

- Mas o pior de tudo, é que a história caiu mesmo na boca do povo. Minha mãe soube do acontecido e falou para o meu pai. Foi um escândalo no lugar. A família da moça se fechou um tempão em casa e se afastou do convívio com as pessoas, até que um dia eles se mudaram da cidade.

- Até hoje não sei como as pessoas ficaram sabendo do caso, não consegui nada com a moça, não confio em padre e tenho raiva de passarinho.

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