Intolerância
As duas mulheres estavam almoçando numa mesa ao fundo do restaurante
self service.
O ambiente estava relativamente calmo e sem tumulto àquela
hora. As pessoas defronte a seus pratos comiam absortas em seus pensamentos,
pareciam estar ausentes no recinto. Cada um em seu próprio mundo. Ninguém se
importava ninguém.
As únicas que conversavam eram mãe e filha, e esta,
visivelmente aborrecida.
- Quando eu
te falei que não queria ir, você não acreditou em mim.
- Mas filha,
é tua tia. É preciso ajudá-la porque está passando maus momentos. Sua doença a
impede de sair de casa. Precisamos manter nossa família unida.
- Já disse
não.
Elas procuravam manter a conversa num volume o mínimo
possível, mas o tom da voz denunciava que a situação não ia bem. A moça
demonstrava uma raiva brutal em sua expressão.
- Eu não quero
me encontrar com a prima, já disse, o que ela aprontou comigo não tem desculpa.
- Tá certo,
mas o que a tia tem com isso?
- Ela pode
até não ter nada com a história, mas a infeliz da filha dela, nem que me peça
de joelhos, o que não acredito que faça, eu volto na casa dela. E depois, só de
pensar na possibilidade de olhar para ela... Esquece.
- Você sabia
que tua prima também tem queixas contra ti?
- Não quero
saber mais nada. Não quero falar mais sobre isso.
As primas estavam em crise. Quem estava no restaurante nunca soube
o motivo da briga. Ficou a impressão de um caso insolúvel, uma amizade perdida,
o desamor e a separação. Uma atribuía à outra a culpa pelo conflito entre elas,
uma história que surgiu e se espalhou na família e entre os amigos. Ambas
ficaram mal.
- A filha
ainda reclamou com a mãe: - Não bastasse tudo o que aconteceu, ainda por causa
dela perdi o meu emprego... Cretina!
- Mas, minha
filha, você é nova. Releva.
- Chega,
mamãe, não quero mais falar sobre isso.
O restante do almoço aconteceu em silêncio de sepultura. O
clima pesado naquele momento não permitia mais nenhuma palavra.
Terminaram o almoço, pagaram e saíram. Tristes.
O tempo passou e anos depois, o que sobrou de tudo entre elas
foi a mágoa, tão distante, tão profunda, mas também tão real e tão presente no fundo
da alma. Como uma mancha escura e indelével contrastando num lençol claro: Por
maior que seja o pano branco, a vista sempre se volta para a nódoa.
Depois do episódio e por causa da intolerância mútua, nunca
mais se falaram. Nem mesmo nas duas vezes em que tornaram a se encontrar: Ela
no enterro da tia, e a prima no enterro do seu pai.
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