É proibido morrer

 
Guarapari é um País calmoso e hereditário onde se respira o ar por conseqüência,

vindo de um lado pelo oceano marital e de outro lado pelo oceano matagal.

Vereador Belarmino Sant' Ana, na cerimônia inauguração do cemitério da cidade em 1916.

O caso se passou em uma pequena cidade localizada na região da Campania, Sul da Itália, e parece surreal pela sua estranheza e pelo aparente delírio de quem o praticou, um atentado ao bom senso e à razão. Mas tem explicação: Pois não é que em Falciano Del Massico é proibido morrer?

É isso mesmo. O presidente da Câmara Municipal local, Giulio Cesare Fava, médico de profissão, mandou publicar a Portaria Nº 9, de 5 de março de 2012, que, segundo ele, “é provocativa”. Nela, fica estabelecido que “... é proibido para os moradores ir além das fronteiras da vida terrena e passar para o além”.

-          Ma come non si muore, Signore Fava?

Resgatando a história, o começo desse imbróglio vem de meados da década de 1960 quando Falciano Del Massico perdeu seu cemitério para a vizinha Carinola, da qual se emancipou politicamente. Mas não se emancipou o suficiente para enterrar os seus próprios mortos.

Mas os defuntos de Falciano continuaram sendo enterrados em Carinola até que a capacidade do cemitério esgotou. Como não houve um acordo para viabilizar a construção de um novo em Falciano, a solução do presidente da Câmara não tardou: É proibido morrer.

Motivo de riso e espanto, o presidente Fava tenta justificar sua iniciativa dizendo que sua ação tem o objetivo de sensibilizar as autoridades da província de Caserta, onde se encontra a pequena Falciano, uma cidade de aproximadamente 4 mil habitantes a cerca de 50 km ao Norte de Nápoles.

E o pior é que duas pessoas já morreram por lá depois da lei.

Antonio Scarano, antigo morador de Falciano, declarou “... fico imaginando quantas pessoas pedirão cidadania aqui, já que não se pode morrer. É um lugar lindo e as pessoas podem ter uma vida muito longa, uma vida eterna”.

Essa história faz lembrar o prefeito Odorico Paraguaçu, personagem do romancista baiano Dias Gomes. Mas de forma diversa, ele passou todo o seu mandato tentando inaugurar o cemitério que havia construído na cenográfica Sucupira. No final da novela, ele próprio é quem foi enterrado lá, morto pelas mãos do temível cangaceiro Zeca Diabo.

Mas, o que poucos sabem, é que a novela de Odorico aconteceu mesmo na vida real, e foi em Guarapari, em terras capixabas. Reza a lenda que nos idos de 1916, dez anos depois de construído, o então prefeito João Batista de Almeida não conseguia inaugurar o cemitério da cidade por falta de morto. Por que? Simples, dizem os moradores do lugar: Guarapari é a Cidade Saúde! A inauguração só se deu quando o prefeito trouxe um defundo emprestado da vizinha Benevente, atual Anchieta.

Foi uma festa.

E antes que se esqueça, e absurdos à parte, o prefeito lá na Italia já mandou avisar que os dois mortos que desrespeitaram a lei em Falciano Del Massico não serão punidos.

Ah! Ainda bem, né...

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