Sem assunto

 
O tempo é como o rio onde banhei o cabelo de minha amada

Água limpa que não volta, como não volta aquela antiga madrugada.

Edu Lobo

- Boa tarde.

- Boa...

Silêncio.

- Calorão, heim!

- É...

...

- Vai chover.

- Ouvi dizer, vai sim.

- O noticiário agorinha mesmo falou que vai cair um temporal.

- Então Vila Velha vai inundar.

- É. Como sempre.

- Chegamos.

- Ciao.

- Té...

Esta calorosa conversa durou o tempo para o elevador descer do nono andar até o térreo do prédio. Eles são vizinhos há mais de dez anos, mas não se conhecem, sabem os seus nomes por ouvir dizer. Cumprimentam-se de vez em quando no hall de entrada. Encontram-se ocasionalmente em reuniões do condomínio. Nunca conversaram.

Quando se esbarram, a conversa é mínima e em torno do clima ou do tempo, quando não, os dois. Sempre em tom de reclamação.

Se chove, reclamam porque choveu. Se faz frio ou se faz calor reclamam assim mesmo.

Quando não é o clima, é o tempo, ou a falta dele:

- O dia passou rápido, né? Nem vi o tempo passar! Quando dei por mim, não tinha feito nada e já era hora de voltar para casa.

- Pois para mim o dia hoje demorou uma semana, como custou passar...

O convívio em sociedade acaba se resumindo em encontros casuais, trombadas improváveis dentro do caos das cidades, rápidos e totalmente desprovidos de qualquer busca de interação entre as pessoas. Na eventualidade de um encontro num elevador ou em outro lugar fechado, obriga o senso de civilidade às pessoas uma conversação qualquer, para mostrar tão somente cordialidade, e às vezes nem isso.

As pessoas não se dão conta, ou fazem questão de não dar importância, que o tempo passa, inexoravelmente. E é igual para todos. Então por que falar dele de maneira recorrente?

Da mesma forma, reclamar do clima: Ora, chove porque tem que chover, e estia porque tem que estiar. Como já disse o Chico uma vez, “nuns dias chove, noutros dias bate sol”.

Então, e daí se chove ou se não chove? E daí se faz calor ou faz frio? Vista um casaco ou tire a roupa, conforme o caso. Saia mais cedo para fazer com menos pressa. Programe-se.

Ao invés de olhar o mundo com uma visão mais otimista das coisas, buscar entender que a natureza possui movimentos próprios e que nós é que devemos nos adaptar, não, parece que as pessoas criam o hábito de reclamar. É como um vício. Mas, como mudar uma pessoa assim? Como mandar que desligue a TV, leia mais, aprenda mais, converse mais? Como convencê-la tirar as lições que o frio traz? Ou que o calor traz?

Talvez a chave da libertação desse vício seja a escolha consciente do que pensar. E ao expressar seu pensamento, buscar o caminho da assertividade. Nunca a reclamação injustificada.

E assim, no curso da vida, como as águas que passam num rio, às vezes calmas, às vezes em turbilhão caudaloso, mas seguindo sempre em frente, se cada um aproveita bem o seu tempo e convive com as pessoas e as paisagens de sua viagem, viveu bem; senão, terá perdido a oportunidade. Sua existência terá passado em reclamações e lamúrias.

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