Vida em família

 
Seu Osmar é um sujeito acostumado com a lida nas grandes obras civis pelo interior do Brasil. Trabalhou em vários estados brasileiros supervisionando a construção de estradas, barragens, açudes e pontes. Com os cabelos fartos e totalmente brancos, tem a pele tostada pelo Sol depois de tantos anos de vida a céu aberto. Está na mesma construtora desde muito tempo e é querido por todos, se bem que de vez em quando algum engenheiro novato, ainda não acostumado com seus modos, se aborrece com sua intromissão e com a franqueza com que fala sobre o resultado de um trabalho malfeito ou mal acabado: “Ficou uma porcaria. Eu te avisei. Depois, não me venha pedir para consertar...”.

Ou então, quando alguém cai no seu agrado, “... escuta o menino, ele é bom, tem futuro na firma”.

Nasceu no Espírito Santo, mas vive em Minas desde sua juventude. Hoje, com 79, pensa em se aposentar. “Mas só um pouco” – diz, “porque ainda tem uns troços aí que preciso resolver antes de parar”.

É que o Seu Osmar está enrolado com suas três mulheres. A esposa descobriu que ele tem duas amantes e a situação pegou fogo.

O caso aconteceu assim: Por causa da natureza do trabalho que executa, Seu Osmar passa grande parte do tempo longe de casa e mora em alojamentos de obra, isolado no mato. Daí, quando tem uma folga mais curta, o caminho é a cidade mais próxima, e em cada uma, um caso amoroso. Ao longo do tempo, ele acabou se envolvendo mais seriamente com duas delas. A primeira, uma antiga conhecida de sua família, e a segunda, uma mulher de 24 anos, morena bonita, cabelos pretos e lisos, “toda durinha” como ele mesmo se refere a ela, promoveu uma devastação em sua vida sentimental. Uma paixão fulminante que deixou Seu Osmar apaixonado. Ele a chama carinhosamente de Mozinho. Vivem num xodó constante. Parecem dois adolescentes que descobriram o amor.

O caldo entornou quando, numa folga maior, estando dormindo em casa, sua mulher atendeu a uma chamada no aparelho celular dele: Era Mozinho, toda dengosa e cheia de saudades, querendo um chamego.

Sua mulher ficou transtornada, só faltava espumar de tanta raiva. Chegou a pegar uma ripa de madeira para acertá-lo, mas como desgraça pouca é bobagem, instantes depois de finalizar a ligação com Mozinho, chegou uma mensagem instantânea da primeira amante dizendo que precisava dele porque o filho estava com febre e o estava levando para o hospital.

Seu Osmar acordou debaixo de ripadas. O pau comeu.

Foi um drama ver a mulher e as duas filhas chorando por causa da infame traição.

            - Valha-me Deus! O meu marido é um adúltero miserável. Tem duas amantes o sem-vergonha, e ainda por cima mais um filho... Desgraçado... Eu mato esse velho babão...

E quanto mais o Seu Osmar tentava explicar, mais se enrolava, e antes que a coisa ficasse pior, deu um jeito de arrumar a mala e saiu de fininho. Quando a mulher se deu conta, já estava longe, a caminho do canteiro de obras em Minas.

            - Como arrumar a situação? - Cismava consigo durante a viagem.

E ainda tinha o filho caçula doente no hospital. Não tivera tempo para telefonar para a primeira amante sobre o que havia acontecido com o menino. Resolveu ir para a casa dela antes de chegar ao alojamento da obra e contar sobre a existência de Mozinho e sobre o que estava acontecendo.

Que ele já era casado, a primeira amante já sabia. O que ela não sabia ainda é que havia mais uma mulher na história.

Depois de conhecer a situação do filho adoentado, acabou se traquilizando porque o garoto já estava medicado e em casa. Sua primeira amante era uma mulher com seus quase quarenta anos, mais madura, sempre calma e ponderada. Regulava com a idade da esposa.

            - É... a casa caiu. No fundo, no fundo, eu tinha certeza de que um dia essa história vinha à tona, mas até eu estou de queixo caído. Então você tem mais uma pra cuidar, né? Você é um velho muito safado. Eu devia te meter a mão na cara. Meter a mão, não, eu devia é te colocar um par de chifres também. Porque chifre de amante dói mais do que de esposa.

            - Mas como é que eu ia adivinhar que minha mulher ia pegar meu telefone?

            - Você tá é ficando gagá. E burro. Como você foi largar o telefone ligado enquanto dormia?

            - Eu esqueci... Dei bobeira...

Depois, mais calmos, ele disse:

            - Perdoa minha traição?

            - De que traição você está falando? Com a sua mulher ou com a segunda amante?

E respondeu baixinho, com cara de cachorro pidão:

- É que Mozinho me deixa doido.

Ela não aguentou a cara dele e caíram na risada.

Ele acabou dormindo por ali mesmo.

No dia seguinte, a primeira amante acordou disposta e decidida a conversar com a esposa porque, afinal, ela também tinha interesse em resolver logo o assunto. Tinha um filho para criar e não podia ficar no prejuízo.

Viajou para Marataízes e quando chegou, a esposa já tinha tomado suas próprias providências. Contara o caso para a família e dois de seus irmãos já estavam a caminho para achar Seu Osmar para dar-lhe um cacete e depois trazê-lo de volta.

As duas mulheres se encontraram, discutiram e brigaram, ficaram com raiva, choraram, soluçaram, mas, talvez por causa da diferença da idade delas com a da segunda amante, aconteceu o inusitado: Elas se entenderam e firmaram uma aliança contra Mozinho. É, a tal de Mozinho era a culpada pela desgraça da família, concluíram.

A maturidade contra a juventude.

Rapidamente, entraram em contato com os irmãos que haviam partido para buscar o traidor e informaram que haviam decidido por uma alteração nos planos iniciais. Agora, quem tinha que levar a surra era a outra amante, a mais nova.

Mas até hoje não conseguiram porque o Seu Osmar tratou logo de esconder Mozinho quando soube da intenção das duas.

Depois desse dia, a esposa e a primeira amante tornaram-se amigas e o caso foi abafado. Mas o Seu Osmar continua até hoje frequentando as duas. E o melhor, o filho mais novo foi aceito na família: Agora, mesmo em casas separadas, a família é composta de duas esposas e três filhos.

Tudo acabou bem, mas ninguém toca no assunto. Elas sabem quando o Seu Osmar está na casa de cada uma, mas fingem não saber. O silêncio delas é a prova da cumplicidade que estabeleceram.
A vida entrou na normalidade.


Dia desses, quando eu conheci o Seu Osmar, ele me falou que sua vida está muito boa, mas por causa da jura contra Mozinho, até hoje ele a mantém escondida numa casa que alugou, e ainda faz uma espécie de previdência privada para ela, depositando todo mês uma quantia na sua Caderneta de Poupança.

            - Vai que aquelas duas malucas resolvem me matar... Mozinho ia ficar desamparada, né?

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