Consulta médica
Duas coisas acabam rapidamente com a vida: a tolice e o
vicio.
Uns perdem a vida por não saber cuidá-la e outros por
não querer fazê-lo.
Assim como a virtude é sua própria recompensa, o vício
é o seu próprio castigo.
Quem vive no vício encontra um fim duas vezes mais
rápido: acaba com a vida e com a honra.
Enquanto quem vive na virtude nunca morre.
A integridade de espírito é transmitida ao corpo:
uma boa vida é plena não só em intensidade, mas também
em extensão.
Baltasar Gracián
A doutora ouviu o relato do homem à sua frente. Fez algumas perguntas
e em seguida passou os olhos nos resultados dos exames que ele havia feito
anteriormente por solicitação de outros médicos. Ele estava ali em frente da
endocrinologista por orientação do cardiologista e do urologista, a quem havia
feito outras consultas no decorrer do seu check
up médico anual. O consultório possuía uma iluminação difusa, o condicionador
de ar mantinha uma temperatura agradável e a sala proporcionava um conforto
acústico que estabelecia um ambiente de tranquilidade e calma. A voz da médica,
da mesma forma, serena e baixa, incentivava a uma conversa sem pressa e
descontraída.
- Você sabe
que precisa emagrecer, não sabe?
- Sim. E
muito.
- Observe a
imagem aqui na ultrassonografia. O seu fígado está coberto por gordura.
Sedentário praticante e convicto, ele ouvia as explicações da
médica com atenção e concordava com tudo. Afinal, ao longo de seus 54 anos de
vida, já havia feito várias dietas de emagrecimento e um sem número de exames
clínicos e consultas daquele tipo.
Já emagrecera várias vezes, mas sempre tornava a engordar, como
uma verdadeira sanfona. Em uma das vezes que se submeteu a uma dieta, conseguiu
baixar seu peso em 16 quilos, uma verdadeira façanha. Mas durou pouco. Sem atividade
física regular e guloso, tornou a mexer o ponteiro da balança no sentido
horário.
- Sua
glicose está no limite.
Tudo o que ela falava ele já sabia.
- Se você
não se cuidar, em breve estará com diabetes, e aí, meu caro, tudo vai ficar
difícil em sua vida.
Sim, ela tinha razão. Era preciso mudar de vida para que a
doença não o mudasse depois para pior.
- São grandes
as chances de melhorar seu quadro atual, mas você tem que mudar sua rotina, se
não quiser ultrapassar a linha entre a saúde e a doença.
A médica então mostrou imagens do abdome aberto com destaque
para o fígado gorduroso. Explicou o funcionamento de tudo.
- No momento,
não há necessidade de medicação alguma. O remédio para o seu caso é somente atividade
física e alimentação adequada, tanto em qualidade quanto em quantidade.
Ele já sabia daquilo tudo, e o que mais vinha a seguir.
- Tenho aqui
uma tabela para você seguir uma dieta.
E foi relatando o que podia e o que não podia comer, isso em
substituição daquilo, se ficar enjoativo repetir tantas vezes, coma aquilo
outro. Etc, etc, etc...
- Mas faça
exercícios físicos, pelo menos três vezes na semana.
Grande novidade, pensou. Mas como arranjar tempo? Com a vida
que eu levo, onde vou arrumar um espaço para andar, correr, nadar, pedalar?
- Não
precisa mais do que caminhar, mas caminhar forte. 40 a 50 minutos cada vez.
Sabia que tinha que fazer isso, sabia que não dava mais para
adiar a decisão. Tinha consciência que se instalara nele o processo de
envelhecimento e que não conseguia mais fazer coisas com facilidade. Calçar as meias
já não era mais tarefa fácil, subir um lance de escada o obrigava a uma pausa,
carregar pacotes era praticamente impossível.
- Então,
está decidido a mudar de vida?
- Sim –
repondeu sem grande convicção, mas resignado – Vou ter que arrumar um tempo
para isso.
Vai ser complicado. E meus livros? Como vou conseguir dar
conta de lê-los se vou para a ginástica?
- Retorne aqui
a um mês que quero ver como você está.
- Obrigado, doutora.
Saiu preocupado e no caminho para casa foi pensando na rotina
que teria que se impor.
E a preguiça que o impedia de se mexer? Essa era a pior parte.
Concluiu que qualquer horário depois do expediente de
trabalho não seria bom. Tinha muita coisa para fazer à noite. Os compromissos
com a Ordem, os livros, os textos, trabalhos levados para casa. É, não seria
possível à noite.
No outro dia, às quinze para as seis da manhã, com um frio danado, tava ele na
academia fazendo sua inscrição.
- Que jeito, né?
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