Serenidade possível

 

Às vezes, Carlos pensava que a cidade inteira tinha desaprendido a respirar.

Era só olhar pela janela do 14º andar. A Baía de Vitória aparecia bonita, quase imóvel, mas bastava virar o rosto para dentro da sala de reuniões e tudo mudava. Vozes tensas. Gente interrompendo gente. Planilhas abertas como armas sobre a mesa. O relógio marcava 9h17 quando Ricardo começou a despejar sua irritação.

— Você está me dizendo que não vai entregar?

O tom veio alto, duro, cortante. Carlos sentiu o calor subir pelo pescoço. Não era só vergonha. Era aquele impulso antigo de se defender imediatamente. A vontade de responder na mesma intensidade. O corpo inteiro parecia se preparar para uma guerra.

Ricardo continuou:

— Três meses de projeto, orçamento aprovado, reunião atrás de reunião… Isso é incompetência!

Os outros colegas ficaram quietos. Não aquele silêncio tranquilo, mas o silêncio desconfortável de quem percebe que qualquer palavra pode piorar tudo. Havia medo.

Carlos conhecia bem aquela sensação. A mente começa a fabricar respostas afiadas em segundos. Dados, justificativas, culpa compartilhada, cronogramas alterados. Tudo pronto para o contra-ataque.

E talvez, alguns anos antes, ele realmente tivesse atacado.

Mas havia uma lembrança que voltava de vez em quando, principalmente nos dias mais difíceis: “Nada no mundo é mais suave e flexível que a água. Ainda assim, nada consegue superá-la ao enfrentar o duro e o rígido”.

Carlos nunca decorara aquilo como quem memoriza uma citação bonita para repetir em rede social. A frase lhe interessava porque parecia verdadeira na prática. A água não vence pela força. Vence porque não disputa dureza com a pedra.

Ele fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e respondeu num tom mais baixo do que o de Ricardo.

— Eu entendo sua frustração. Você tem razão em estar preocupado. Mas entregar tudo em 48 horas criaria um risco enorme. O que dá para fazer é entregar 70% com qualidade nesse prazo e finalizar o restante em sete dias.

A mudança do clima foi quase física.

Ricardo piscou algumas vezes, como se a própria agressividade tivesse perdido o endereço. Sem resistência para bater, a raiva começou a cair sozinha.

— Hum… setenta por cento em 48 horas… — murmurou, já sentado novamente. — Isso talvez funcione.

E funcionou.

A reunião terminou sem gritos. O contrato foi preservado. Mais tarde, já perto do almoço, Carlos recebeu uma mensagem no celular: “Desculpa pelo tom. A pressão do cliente me pegou forte hoje”.

Carlos leu sem surpresa. Muitas vezes, pensava ele, as pessoas só continuam agressivas porque encontram outra agressividade pela frente. É como empurrar uma porta que já está sendo empurrada do outro lado.

O curioso é que o verdadeiro teste daquele dia ainda nem tinha começado.

A noite tinha chegado, retornando para casa, Carlos estava preso no trânsito da Avenida Beira-Mar. Chovia fino. Os faróis refletidos no asfalto pareciam manchas líquidas de luz vermelha e amarela.

Então aconteceu. Um sedã branco atravessou sua frente sem seta, obrigando Carlos a frear de repente. O coração disparou no mesmo instante. Antes que pudesse entender direito, o motorista ainda colocou o braço para fora da janela e fez um gesto obsceno.

Atrás, um utilitário começou a buzinar sem parar.

Carlos sentiu a raiva subir inteira outra vez. Veio rápida, elétrica, pronta para assumir o volante. Sua mão pousou sobre a buzina. O pé pesou no acelerador.

— Agora chega. — Era isso que a mente dizia.

Ele imaginou emparelhar com o carro branco. Cobrar explicações. Gritar. Mostrar que não era alguém passivo.

Mas então percebeu uma coisa simples: aquela briga só existiria se ele aceitasse entrar nela.

Lao Zi chamava isso de Wu Wei, a não-ação. Não significava preguiça, covardia ou omissão. Significava agir sem forçar inutilmente o fluxo das coisas. Não alimentar conflitos desnecessários. Não lutar contra toda correnteza como se o mundo inteiro dependesse disso.

Desistiu de buzinar, respirou fundo, não fez nada.

O sedã branco acelerou alguns metros depois e desapareceu rumo à Terceira Ponte. O motorista atrás ainda deu uma última buzina irritada antes de mudar de faixa.

E acabou.

Sem resposta, a raiva dos outros ficou apenas pertencendo a eles mesmos.

Carlos seguiu dirigindo devagar, enquanto sentia o próprio corpo desacelerar. Era estranho perceber como um conflito inteiro podia morrer simplesmente porque alguém decidiu não carregá-lo adiante.

Quinze minutos depois do habitual, ele entrou em casa. O cheiro de café fresco parecia outra realidade. A esposa apareceu na sala e perguntou:

— Estresse no trânsito?

Carlos tirou as chaves do bolso, sorriu cansado e sentou no sofá.

— Tinha — respondeu. — Mas resolvi não trazer comigo.

Ela riu de leve, sem entender totalmente a dimensão daquela frase.

Lá fora, a cidade continuava a mesma. Buzinas. Pressa. Cobranças. Gente tentando vencer discussões no grito. O mundo seguiria duro, acelerado e barulhento.

Mas Carlos começava a descobrir algo que Lao Zi já intuía há mais de dois mil anos: a verdadeira força nem sempre está em reagir. Às vezes, ela aparece justamente na capacidade de não devolver ao mundo toda a dureza que ele lança sobre nós.

Como a água contornando a pedra, silenciosa e suave. E, ainda assim, invencível.


2 comentários:

  1. Rapaz, a cada texto seu vou ficando mais "viciado" nestas mensagens que você transmite de forma tão elegante e certeira. PARABÉNS!

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  2. Anônimo00:02

    Muito obrigado pela leitura.

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