O peso de não saber o que se quer


A luz da manhã atravessava a janela da sala sem pedir licença. Era uma luz limpa, dessas que parecem prometer algum recomeço, mas sobre a minha escrivaninha tudo permanecia parado. O café já estava frio ao lado do notebook, intacto, enquanto o cursor piscava no fim da frase interrompida: …as escolhas invisíveis que moldam quem somos.

Fiquei alguns segundos olhando para aquilo, como se a continuação pudesse surgir sozinha, por piedade. Não surgiu.

Levantei devagar, passando a mão pelos cabelos ainda desalinhados de sono. A sala carregava um silêncio estranho, quase sólido. Na estante, as lombadas gastas de Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger pareciam me observar com aquela arrogância silenciosa típica dos filósofos mortos.

Respirei fundo.

Ultimamente, escrever tinha deixado de ser prazer. Tornara-se uma espécie de necessidade confusa, quase física. Não era exatamente inspiração. Também não era disciplina. Era mais como uma inquietação constante que só diminuía quando colocava palavras no papel — ainda que não soubesse exatamente por quê.

Enquanto caminhava pela sala, lembrei de uma passagem de Arthur Schopenhauer. Para ele, a vida humana era movida pela Vontade, uma força irracional, cega e incessante, que empurrava os indivíduos de desejo em desejo. O problema, dizia o filósofo, é que desejar significa sofrer. Quando se alcança o objeto desejado, vem o vazio; quando não se alcança, vem a frustração. E assim a existência oscila, sem descanso, entre a dor e o tédio.

Achei cruel perceber o quanto aquilo fazia sentido às nove da manhã de uma quarta-feira comum.

Talvez fosse exatamente isso que me incomodava diante da tela do computador: eu não sabia se queria terminar o texto porque tinha algo verdadeiro a dizer ou apenas porque precisava ocupar a mente. A escrita podia ser criação, contemplação… ou apenas distração sofisticada.

Parei diante da janela. Lá fora, uma senhora varria a calçada lentamente. Um cachorro dormia ao sol. Um entregador passava equilibrando pressa e cansaço numa motocicleta barulhenta. Há beleza nas coisas simples, mas nem sempre tenho tempo para vê-las, pensei.

E havia mesmo. Mas percebia que, quase sempre, estava ocupado demais tentando entender a própria vida para simplesmente vivê-la.

Voltei à mesa. Li novamente o início do texto e senti um leve desconforto. Porque estava ruim? Talvez porque parecesse honesto demais?

Talvez escrever seja apenas uma forma de organizar o que não sabia explicar — pensei e sorri. A frase me pareceu menos uma conclusão e mais uma confissão.

Peguei a xícara de café e bebi um gole frio. Fiz uma careta. Ainda assim terminei o resto.

A verdade é que eu não sabia exatamente o que queria da vida naquele momento. E isso me assustava mais do que costumo admitir. Havia tempos em que os desejos pareciam claros: monitorar a saúde, praticar exercícios físicos com frequência adequada, publicar o próximo livro. Mas naquele instante os objetivos tinham perdido nitidez, como fotografias esquecidas ao sol.

Schopenhauer provavelmente diria que aquilo era inevitável. O ser humano deseja porque é constituído pela falta. Quando um desejo se realiza, outro aparece logo em seguida. Não existe satisfação permanente. Apenas pequenos intervalos de suspensão da Vontade. Olhei outra vez para o cursor piscando. Talvez o texto fosse exatamente isso: um pequeno intervalo. Uma pausa breve no ruído interno.

Sentei-me novamente e comecei a digitar sem pensar muito. As palavras vieram menos organizadas, mas mais leves. Não tentava mais escrever algo definitivo ou brilhante. Apenas sincero.

Enquanto escrevia, percebi que boa parte da vida era feita desse improviso silencioso. Gente tentando entender o próprio coração enquanto paga boletos, faz café e responde mensagens atrasadas. Gente comum, histórias (quase) reais. Aquilo me fez rir sozinho outra vez.

Na estante, Nietzsche parecia menos severo agora. Heidegger continuava com a mesma cara metafísica de quem complicaria até uma receita de bolo. Mas Schopenhauer… Schopenhauer parecia apenas cansado do mundo.

E talvez fosse justamente por isso que gostava dele: havia honestidade naquela filosofia amarga. Uma recusa em fingir que a vida era simples ou plenamente feliz. Ao mesmo tempo, existia ali uma estranha beleza: a ideia de que a arte, a contemplação e até a escrita poderiam suspender por instantes o domínio cruel da Vontade. Não resolver. Suspender.

Talvez fosse pouco. Mas, naquela manhã, parecia já o suficiente.

Terminei mais um parágrafo e recostei-me na cadeira. O texto ainda estava longe do fim, mas algo estava agora menos apertado.

Olhei novamente pela janela. O cachorro continuava dormindo ao sol. A senhora havia terminado de varrer a calçada. E a cidade seguia seu ritmo indiferente.

Então me veio outra pergunta, silenciosa e inevitável: o que fica quando tudo passa? — não soube responder.

Talvez ninguém saiba. Talvez a vida fosse justamente essa coleção de tentativas incompletas de compreender o próprio desejo antes que o tempo apagasse as perguntas. Fechei os olhos por alguns segundos. Depois voltei a escrever porque, sabia, ainda havia páginas esperando.

E porque no fim, é tudo sobre continuar a viver…


Um comentário:

  1. A cada leitura, uma surpresa e um novo aprendizado. Shopenhauer! Como não se deixar encantar por seus questinamentos? Giovanni, parabéns mais uma vez.

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