O Jardim de Epicuro no sofá da sala


No fim das contas, a sala de Cláudia nunca apareceria em nenhum vídeo de influenciadora. O sofá tinha uma almofada afundada de um lado, a manta estava meio jogada sobre o braço do encosto e havia uma caneca esquecida na mesa de centro desde o almoço. Pela janela, a luz morna de um domingo preguiçoso atravessava a cortina fina, enquanto um cheiro suave de café recém-passado vinha da cozinha.

Laura, deitada de bruços no chão, mal percebia qualquer uma dessas coisas. O rosto iluminado pela tela do celular se movia num ritmo automático: desliza, pausa, desliza outra vez. Casas enormes, viagens perfeitas, roupas caras, sorrisos impecáveis. Um desfile sem fim de vidas aparentemente melhores que a dela.

Cláudia observou aquilo em silêncio por alguns instantes. Depois se sentou no sofá e perguntou, sem tom de bronca:

    — Laura, você está procurando alguma coisa aí ou só rolando?

A menina nem levantou os olhos.

    — Ah… vendo uns vídeos. Tem umas meninas que têm uma vida perfeita. Pelo menos parece.

Cláudia sorriu de leve. Conhecia aquele tipo de comparação. Talvez, em outras épocas, ela tenha acontecido pela televisão, pelas revistas ou pela conversa invejosa entre vizinhas. O cenário mudava; a inquietação humana, não muito.

    — E você acha que elas são mais felizes que você?

Laura demorou um pouco para responder.

    — Não sei… acho que sim.

A mãe apoiou a cabeça no encosto do sofá e ficou olhando para o teto por um segundo, como quem buscava alguma lembrança distante.

    — Sabe, isso me faz lembrar um filósofo grego chamado Epicuro. Muita gente pensa que ele defendia exageros e prazeres sem limites, mas era justamente o contrário.

Laura tirou os olhos da tela.

    — Como assim?

    — Ele dizia que a felicidade não estava no luxo nem em viver correndo atrás de tudo o que aparece. Para ele, os melhores prazeres eram os simples: ter saúde, tranquilidade, amigos e uma vida sem tanta perturbação.

Laura virou o celular para baixo no chão, ainda desconfiada.

    — Mas então ele era contra coisas legais?

    — Não. Ele só achava que alguns desejos viram uma armadilha. Epicuro separava os desejos em tipos. Existem os naturais e necessários, como comer, descansar, sentir segurança. Existem os naturais, mas não necessários, como querer uma comida muito sofisticada em vez de algo simples. E existem os desejos vãos, que nunca acabam: fama, excesso de riqueza, necessidade de aprovação.

Laura soltou um “hmm” curto, daqueles que adolescentes usam quando começam a prestar atenção sem admitir completamente.

Cláudia apontou para o celular no chão.

    — O problema não é o celular. O problema é quando ele transforma a vida da gente numa comparação sem fim. Aí o desejo fica igual a um vaso furado: nada nunca basta.

Por alguns segundos, ouviram apenas o barulho distante de uma motocicleta passando na rua.

Laura suspirou.

    — Às vezes eu fico meio nervosa depois de passar muito tempo vendo isso. Parece que tudo que eu tenho é pouco.

Cláudia assentiu devagar. Havia sinceridade naquele comentário. Não era rebeldia, nem drama adolescente. Era só cansaço.

    — Epicuro falava de uma coisa chamada ataraxia. Uma palavra complicada para uma ideia simples: paz interior, a ausência de perturbações da alma. Uma vida sem essa agitação constante de achar que você precisa ser outra pessoa, ter outra casa, outro corpo, outra vida.

Laura ficou mexendo na barra da blusa.

    — Mas aí eu faço o quê? Largo o celular para sempre?

A mãe riu.

    — Claro que não. Nem Epicuro defendia fugir do mundo. Ele falava em moderação. Em escolher os prazeres que realmente fazem bem.

Ela então pegou a própria caneca vazia da mesa.

    — Tem um conceito dele que eu acho genial: o “cálculo do prazer”. Às vezes a gente evita um prazer rápido para escapar de uma dor maior depois. Tipo continuar horas no celular agora e terminar o dia ansiosa, irritada e achando sua vida insuficiente.

Laura ficou quieta. O silêncio dela parecia concordar mais do que qualquer resposta.

Cláudia então abriu os braços teatralmente para a sala bagunçada.

    — Olha só esse palácio luxuoso onde vivemos.

Laura riu pela primeira vez.

    — Nossa, chiquérrimo…

    — Pois é. E mesmo assim tem café, sofá, paz e companhia. Para Epicuro, isso já era riqueza suficiente.

Havia alguma coisa curiosa naquela conversa. Nada mágico aconteceu. A sala continuava simples. O domingo continuava lento. O mundo lá fora seguia cheio de gente exibindo viagens impossíveis e vidas editadas. Ainda assim, por alguns instantes, Laura parecia respirar de outro jeito.

Cláudia sugeriu um filme antigo. Laura reclamou por obrigação moral adolescente, mas acabou aceitando. Depois combinaram fazer pipoca.

O celular ficou abandonado no canto do sofá, em silêncio.

E talvez tenha sido justamente naquele pequeno silêncio que o velho Jardim de Epicuro apareceu ali, discretamente, dentro daquela sala meio bagunçada. Não como um lugar perfeito, mas como um raro instante em que ninguém precisava ser mais rico, mais bonito ou mais admirado para sentir que a vida, daquele jeito simples, já bastava um pouco.


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