O barulho de uma enorme explosão veio sem aviso. Seco, metálico, fundo demais para ser trovão. As janelas tremeram primeiro. Depois, o copo esquecido sobre a pia vibrou num pequeno desespero de vidro. E então veio aquele silêncio estranho que sempre aparece depois de um susto grande, como se o mundo prendesse a respiração por alguns segundos para conferir se ainda estava inteiro.
Lúcia levantou os olhos do tanque.
Por um instante, ficou parada. Não pensando exatamente em alguma coisa, mas tentando entender se o coração acelerado fazia sentido ou se era apenas impressão. Há momentos em que a realidade parece desafinar de repente. O cotidiano segue tão certinho — o cachorro dormindo na sombra, o rádio do vizinho tocando um sertanejo antigo — que qualquer rachadura no normal provoca uma espécie de vertigem.
Ela enxugou as mãos no pano de prato e saiu para o portão. Do outro lado da rua, quase no mesmo movimento, Dona Zélia já surgia devagar, segurando o trinco da própria grade. O cabelo branco preso às pressas, o avental florido e aquela calma de quem já atravessou décadas suficientes para saber que o mundo vive estalando de tempos em tempos.
As duas ficaram alguns segundos olhando para o céu suavemente azul.
— A senhora ouviu isso? — perguntou Lúcia.
Mas a pergunta não era exatamente sobre o som. Era outra coisa.
Quase um pedido silencioso para que alguém confirmasse que aquilo tinha acontecido de verdade. Porque certos sustos só ficam suportáveis quando encontram eco em outra pessoa. O medo sozinho costuma crescer demais dentro da cabeça da gente.
Dona Zélia ajeitou os óculos.
— Ouvi, sim. Deve ter sido lá na pedreira outra vez. Olha aquela fumaça escura.
Lúcia acompanhou o gesto dela com os olhos. E foi curioso como, naquele instante, tudo começou a voltar para o lugar. O céu continuava azul. A fumaça existia. O som tinha uma origem. O coração ainda batia rápido, mas agora havia uma explicação compartilhada entre duas pessoas encostadas em grades diferentes.
Sem perceber, elas haviam transformado o susto em conversa. E talvez seja justamente aí que mora uma das coisas mais importantes da vida comum.
Jürgen Habermas dizia que os seres humanos constroem entendimento através da comunicação. Não da comunicação usada para vencer discussões, manipular ou impor poder, mas daquela troca simples em que duas pessoas tentam compreender juntas o que está acontecendo ao redor delas. Era a ação comunicativa.
No portão de casa, sem qualquer teoria sofisticada, Lúcia e Dona Zélia faziam exatamente isso.
Nenhuma queria convencer a outra de nada. Não havia disputa. Apenas a necessidade profundamente humana de reorganizar o mundo depois de um pequeno abalo.
O mais curioso é que o portão, normalmente feito para separar, naquele instante servia para unir. Virava quase uma praça improvisada. Uma minúscula esfera pública doméstica, dessas que sobrevivem nos bairros antigos, onde as pessoas ainda trocam duas palavras antes de entrar correndo para dentro de casa.
Hoje em dia, muita coisa virou comunicação sem encontro: mensagens curtas, áudios acelerados, comentários atravessados em rede social. Todo mundo fala, mas quase ninguém realmente confirma a existência do outro. Talvez por isso pequenos diálogos de vizinhança carreguem uma força tão desproporcional ao tamanho deles.
Dona Zélia suspirou.
— Antigamente essas explosões eram menores.
— Eu assustei demais — confessou Lúcia, já rindo um pouco do próprio susto.
— E vai assustar sempre. O corpo da gente não se acostuma com esses estrondos.
Depois disso veio um silêncio confortável, mas não vazio. Apenas tranquilo, como acontece quando duas pessoas dividem a mesma realidade e já não precisam explicar tanto.
Lúcia sentiu então o cheiro de bolo assando vindo da casa da vizinha.
— A senhora estava cozinhando?
— Bolo de fubá. Se eu deixar aquilo passar do ponto, aí sim acontece uma tragédia.
As duas riram.
E havia algo profundamente bonito naquela resposta. Enquanto o mundo lá fora explodia pedras, alguém continuava cuidando do bolo no forno. Como se a civilidade dependesse justamente dessas pequenas insistências: varrer a calçada, oferecer café, perguntar se o outro ouviu um estrondo.
Habermas acreditava que a sociedade se sustenta quando as pessoas preservam espaços de diálogo verdadeiro. Não precisava ser um parlamento, um jornal importante ou uma universidade. Às vezes bastava um portão de ferro num fim de tarde quente.
Antes de entrar, Dona Zélia apontou o dedo para a vizinha:
— Qualquer coisa, dê um grito no portão.
E talvez aquele fosse o pacto mais antigo das ruas tranquilas. Enquanto existir alguém disposto a ouvir o grito, confirmar o susto e dividir o silêncio depois do barulho, o mundo continuará encontrando um jeito de permanecer inteiro.
Gosto muito desta sua maneira tão elegante de transformar eventos corriqueiros em mensagens que se a gente começa a ler, não pode mais parar. Parabéns!
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