Solidão na festa

 A festa acontecia no último andar de um prédio antigo. Luzes douradas piscavam sobre as mesas, o DJ alternava batidas eletrônicas com um saxofone melancólico perdido em alguma remixagem sofisticada, e as pessoas circulavam como se obedecessem a uma coreografia invisível. Riam alto, erguiam copos, repetiam histórias. Tudo parecia funcionar bem demais. Ele chegou atrasado.

Entrou segurando o paletó no braço e carregando aquele sorriso automático que muita gente aprende no trabalho. Era homem de números, planilhas, reuniões e respostas rápidas. Sabia conversar sem realmente dizer nada de si. Falava do trânsito, do mercado, da música, do calor. Frases eficientes. Frases prontas. O tipo de conversa que evita silêncio e mantém a máquina social funcionando.

No começo, tudo parecia normal. Cumprimentou conhecidos, ouviu piadas repetidas e concordou com opiniões que nem sabia se eram as dele. Mas, aos poucos, sentiu uma estranheza difícil de explicar. Como se as palavras começassem a perder peso antes mesmo de saírem da boca. As conversas ecoavam ocas. As risadas pareciam vir de muito longe.

Do outro lado do salão, ela observava as pessoas encostada numa coluna.

Tinha um copo quase vazio na mão e aquele olhar de quem parecia mais interessada em perceber do que participar. Era artista. Passava os dias tentando transformar sentimentos confusos em imagens que quase ninguém entendia completamente. Já estava acostumada a ouvir comentários rápidos sobre suas obras — “forte”, “bonito”, “diferente” —, como se as pessoas preferissem rótulos simples ao desconforto de realmente sentir alguma coisa.

A festa lhe causava um cansaço estranho. Parecia um catálogo de superfícies: roupas cuidadosamente escolhidas, frases ensaiadas, pequenas performances sociais acontecendo ao mesmo tempo. Havia momentos em que o riso coletivo lhe dava quase uma sensação física de sufocamento, como se todos estivessem ocupados demais tentando parecer vivos.

Foi o acaso que os aproximou.

Um brinde coletivo, um empurra-empurra perto do balcão e um copo derramado criaram aquele pequeno caos típico de festas cheias. Pediram desculpas ao mesmo tempo. Sorriram por educação.

A conversa começou exatamente como tantas outras.

Comentaram sobre a música. Perguntaram o que o outro fazia. Trocaram observações rápidas. Ele falava como quem organiza palavras para evitar falhas. Ela respondia com imagens e metáforas que pareciam não encaixar no ritmo dele.

Havia um descompasso evidente. Ele queria manter a conversa segura. Ela queria encontrar alguma fresta.

Por alguns minutos, os dois permaneceram presos naquele teatro social comum. Karl Jaspers talvez chamasse aquilo de permanência no cotidiano automático do Dasein, como existência imersa em papéis habituais, protegida pelas rotinas e convenções.

Só que alguma coisa começou a falhar. Os intervalos entre as frases cresceram. O barulho da festa virou uma massa distante e sem forma e então, nenhum dos dois correu para preencher o silêncio. E aquele silêncio não era constrangimento.

Era como se ambos tivessem percebido, ao mesmo tempo, a distância enorme entre falar e realmente se comunicar.

Ele sentiu um desconforto súbito ao perceber que muitas das palavras que usava diariamente já não pareciam propriamente suas. Eram máscaras sociais tão repetidas que haviam grudado em sua voz.

Ela, por sua vez, percebeu o quanto também aumentava sua inquietação. Quantas vezes transformara sentimentos reais em estética suportável para os outros consumirem sem perigo.

Ali, no meio da festa, os dois experimentaram algo que lembrava o pensamento do filósofo sobre as situações-limite: Existem experiências inevitáveis — angústia, sofrimento, fracasso, solidão, morte — que rompem as ilusões confortáveis do cotidiano e obrigam o indivíduo a encarar a própria existência sem disfarces.

Não era uma tragédia grandiosa. Era apenas um instante de lucidez. Mas bastava.

Ele tirou o paletó e o largou sobre a cadeira, num gesto simples, quase banal. Ainda assim, havia algo de simbólico ali, como se deixasse cair uma camada da personagem que sustentava havia anos.

Ela riu. Mas não foi o riso automático da festa. Foi um riso leve de reconhecimento, como quem percebe que outra pessoa também enxergou a rachadura escondida na superfície.

Depois disso, começaram a falar de verdade — ou ao menos tentar. Confessaram pequenos cansaços. O desgaste de viver cercado por aparências. A dificuldade de encontrar conversas honestas. A sensação de que quase tudo hoje precisava virar performance, legenda ou opinião pronta.

Mesmo assim, a linguagem continuava insuficiente.

Às vezes paravam no meio da frase. Às vezes riam da incapacidade de explicar exatamente o que sentiam. E talvez ali estivesse justamente a incomunicabilidade: o fato de que nenhuma palavra consegue atravessar completamente a distância entre duas consciências, mas ainda assim, havia valor na tentativa.

Ao redor deles, a festa seguia intacta. Pessoas brindavam, discutiam, dançavam, se beijavam, tiravam fotos. O mundo permanecia indiferente àquela pequena ruptura existencial perto da janela.

Quando a madrugada começou a esvaziar o salão, caminharam juntos até o vidro enorme que dava vista para a cidade. Lá embaixo, as luzes refletiam no rio como linhas quebradas.

Nenhum dos dois prometeu nada. Trocaram números, mas sem nenhum compromisso, como quem deixa um vestígio possível. Talvez se reencontrassem. Talvez voltassem às antigas máscaras já no dia seguinte.

Mas havia uma coisa que não podiam mais ignorar: no meio da multidão, pela primeira vez em muito tempo, tinham percebido o tamanho exato da própria solidão.


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