Na véspera de Natal, depois do almoço comprido e daquelas travessas que parecem nunca esvaziar, a casa foi ficando em estado de repouso, meio calorento, meio sonolento, com o ventilador empurrando o ar de um canto a outro da varanda. Eu me afastei um pouco do centro da festa e fui parar naquela rodinha de conversa que sempre nasce à margem, perto da porta da cozinha, onde as vozes ficam mais soltas e os assuntos ganham um tom de confidência sem pedir licença. Ali estavam alguns parentes, copos na mão, risos curtos, comentários atravessados sobre a vida alheia, como se cada um estivesse tentando entender os outros enquanto fingia apenas passar o tempo.
Foi nesse pedaço de tarde, entre o cheiro de comida e o barulho dos talheres sendo recolhidos, que a tia Rose resolveu falar de Clóvis. Ela era dessas pessoas que parecem guardar frases prontas dentro da bolsa, mas nunca no sentido de enfeite: quando falava, vinha com um peso manso, quase de oração. Disse que Clóvis andava outra vez tentando retomar os estudos, e que agora jurava, com a convicção de quem já tropeçou muito, que era de verdade. Já tinha prometido outras vezes. Já tinha tentado outras vezes. Já tinha começado, parado, recomeçado, desistido, se explicado, se envergonhado e, ainda assim, lá estava ele, de novo, querendo dar um jeito na própria vida.
Eu olhei para o quintal, para o varal quase vazio, para a luz amarelada escorrendo pela parede, e ouvi a tia Rose emendar, com aquela segurança calma que só algumas tias têm, a frase de Hannah Arendt. Segundo ela, a natalidade, em Arendt, expressa a capacidade humana de iniciar o novo; por isso, a coragem de recomeçar numa segunda-feira simboliza a confiança de que sempre é possível inaugurar caminhos, mesmo após interrupções, fracassos ou cansaço. Ela disse isso como quem acende uma pequena lâmpada dentro da conversa. E eu achei bonito o modo como a filosofia entrou sem bater na porta, sentou-se ao canto e ficou ali, dividindo espaço com o café, os restos de rabanada e a preocupação com o emprego do Clóvis.
Na hora, concordei com a tia Rose em tom quase solene, porque havia naquilo uma verdade simples demais para ser ignorada. O nascimento, para Hannah Arendt, não é só o começo biológico, o instante em que alguém chega desdentado e chorando ao mundo. É mais do que isso. É a entrada de uma pessoa na vida comum, com a potência de fazer surgir algo que ainda não existia. Aquilo encaixava-se perfeitamente em Clóvis, que já não era mais o rapaz das primeiras tentativas, mas um homem carregado de recomeços, desses que vão deixando marcas invisíveis na fala, no jeito de baixar os olhos, na pressa de se justificar. Mesmo assim, havia nele um resto de confiança, uma espécie de teimosia luminosa.
Enquanto os outros comentavam que ele precisava mesmo era alavancar a carreira, eu fui reparando nos detalhes da cena: a colher batendo no fundo da xícara, o forro de plástico da mesa meio levantado numa ponta, a sombra do portão desenhando uma faixa torta no chão da garagem. Tudo parecia ordinário, e talvez por isso mesmo, tão fiel ao que somos. A vida, pensei, raramente se apresenta com alarde quando está prestes a mudar. Ela costuma chegar como a segunda-feira, sem cerimônia, com cara de rotina. E, no entanto, é justamente aí que mora o espanto.
Tia Rose continuou falando, como quem já tinha entendido o assunto antes de todo mundo. Disse que ninguém recomeça do mesmo ponto, porque ninguém volta igual depois de tantas quedas. E eu fiquei pensando que a coragem de Clóvis talvez não estivesse em prometer uma virada grandiosa, mas em aceitar de novo a travessia do começo. Recomeçar, afinal, é quase sempre uma tarefa modesta por fora e imensa por dentro. É comprar caderno novo, abrir a plataforma do curso, decorar o horário do ônibus, sentar numa cadeira que parece maior do que a gente. É engolir a vergonha antiga e fazer dela alguma coisa útil. É olhar para a segunda-feira e não ver nela só o peso da semana, mas uma chance pequena, concreta, quase doméstica.
Hannah Arendt, naquele instante, me pareceu menos uma pensadora distante e mais uma presença possível na mesa de Natal. Não como enfeite intelectual, mas como alguém que nos devolve a ideia de que começar é humano. Talvez seja isso que nos salva do cansaço: a suspeita de que ainda não acabou, de que sempre existe uma fresta por onde a vida entra outra vez. Clóvis, com sua tentativa renovada, parecia carregar esse tipo de fresta. Não a promessa de sucesso, que seria vaidade demais, mas a disposição para insistir.
Quando a tarde começou a descer e as vozes foram ficando mais baixas, percebi que eu também me sentia um pouco atravessado por aquela conversa. Há dias em que a gente escuta uma frase e ela fica morando na gente como um móvel simples, daqueles que não chamam atenção, mas sustentam a casa. A frase da tia Rose era assim. E eu saí dali com a impressão de que toda segunda-feira guarda alguma coisa de nascimento, mesmo quando vem com cara de obrigação. Talvez seja só isso que a vida nos peça: a coragem discreta de abrir a porta mais uma vez e entrar.
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