Um milhão de solidões

 Particitei da Romaria dos Homens inúmeras vezes, já até perdi as contas, mas dois dias depois da deste ano meus pés ainda doíam.

Havia uma rigidez incômoda nas panturrilhas, uma lembrança física daqueles quilômetros todos atravessando o asfalto ainda morno depois de um dia quente, entre Vitória e Vila Velha. O corpo sempre guarda aquilo que a alma demora mais tempo para compreender. Talvez por isso eu continuasse olhando, quase sem perceber, para o par de tênis abandonado no canto do quarto. Ainda estavam molhados e cobertos pela sujeira da caminhada, como se trouxessem agarrada neles uma parte daquela noite.

Fiquei observando os cadarços frouxos e, de repente, fui devolvido às dezessete horas daquele sábado de abril.

A Catedral e todo o seu entorno já estavam tomados por uma multidão quando cheguei. Pelos telões e pelos alto-falantes, percebi que a missa de encomenda havia terminado naquele instante e o céu de Vitória começava a adquirir aquele tom dourado e melancólico dos fins de tarde marítimos, enquanto as pessoas se moviam lentamente como uma maré humana. Havia vozes, cânticos, orações sussurradas e o som contínuo de milhares de passos inquietos. Havia previsão de chuva para aquela noite.

Então a imagem de Nossa Senhora da Penha começou a avançar.

Naquele instante, senti algo difícil de explicar. Diante de mim havia quase um milhão de homens. Ombros encostados, rostos cansados, promessas escondidas, dores invisíveis. Um oceano de gente. Ainda assim, nunca me senti tão sozinho.

Mas não era uma solidão amarga. Era algo ainda indescritível.

Como se cada um ali carregasse dentro de si um quarto secreto onde ninguém mais podia entrar. Caminhávamos juntos, mas cada um travava silenciosamente a sua própria batalha. Alguns talvez pedissem pela saúde de alguém; outros, por um filho perdido; outros apenas buscassem um pouco de paz. Éramos um milhão de solidões formando um único corpo em movimento.

Muitos portavam castiçais improvisados com velas acesas.

Quando a caminhada começou de fato, percebi que o barulho externo logo se transformava em ruído distante. A cidade alta passava ao redor, mas aos poucos fui deixando de prestar atenção nela. Na Vila Rubim as orações ecoavam pelas paredes velhas e escuras. A Segunda Ponte surgiu iluminada à frente como uma espécie de travessia simbólica. O vento vindo da baía amenizava o calor, mas o peso nas pernas começava a crescer. É, vai chover mesmo.

E foi ali, no meio da caminhada, que a pergunta apareceu, como se o próprio Agostinho ali estivesse ao meu lado, caminhando comigo.

“O que vieste fazer aqui?”

A pergunta não vinha de fora. Ninguém a havia pronunciado. Ela simplesmente emergiu dentro de mim como emergem certas verdades incômodas que evitamos escutar no cotidiano. Continuei andando em silêncio enquanto tentava responder.

Percebi então como existe, escondido dentro da fé humana, um desejo constante de negociação. Caminhamos quilômetros e, quase sem perceber, desejamos apresentar o sacrifício como moeda: alguns quilômetros em troca de proteção, de cura, de sucesso, de alívio.

Meus pés pagavam tributo ao asfalto, mas meu coração tentava decifrar a moeda com que eu pretendia pagar a Deus.

Foi naquele momento que compreendi uma coisa simples e dura: Deus não aceita comércio. Apenas entrega.

O sacrifício não é uma moeda para comprar Deus, mas o peso que esmaga a vaidade humana para que reste apenas o amor gratuito. A caminhada não diminuía a distância entre mim e o céu; diminuía apenas a espessura do meu orgulho. O cansaço físico parecia esmagar lentamente certas vaidades interiores. Depois de tantos quilômetros, o homem deixa de sustentar personagens. Sobra apenas aquilo que ele realmente é.

Continuei andando.

Ao redor, as pessoas cantavam, rezavam, conversavam. Mas dentro de mim havia um silêncio crescente. Pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia necessidade de explicar nada a ninguém. Nem mesmo a mim.

Quando finalmente chegamos à Prainha, mais de três horas depois, já era noite fechada. Chovia forte. Então vi o Convento.

Lá em cima, iluminado contra a escuridão do morro, ele parecia menos uma construção humana e mais uma janela aberta sobre alguma coisa eterna. Por alguns segundos permaneci imóvel olhando para o alto. O corpo estava exausto e molhado. As pernas queimavam. Mas havia naquele cansaço uma estranha serenidade.

Algumas velas ainda resistiam à chuva. O murmúrio coletivo se expandia no grande parque da Prainha como uma prece única, formada por milhares de vozes imperfeitas.

E compreendi, talvez tarde demais para quem já atravessou tantos anos da vida, que a verdadeira sabedoria não estava em vencer os quatorze quilômetros. Estava em deixar que eles me vencessem.

Maria, a Mãe Santíssima, não era o destino final daquela caminhada. Era apenas a mão apontando para o Alto. Como uma mãe que não deseja ser contemplada por si mesma, mas conduzir os filhos para algo maior do que ela.

Fiquei algum tempo olhando o Convento sem dizer palavra alguma.

Assisti à missa encharcado. Depois voltei para casa.

Agora, em meu quarto, sentado em silêncio, entendo que a Romaria dos Homens de 2026 não terminou naquela noite na Prainha. Aqueles quilômetros foram apenas um ensaio para a grande romaria da existência. Todos caminhamos carregando cansaços secretos, buscando alguma forma de repouso para a inquietação que nos habita.

Fecho os olhos e ainda consigo ouvir os passos daquela multidão atravessando a noite.

Mas percebo, finalmente, que o diálogo mais importante não aconteceu entre um milhão de homens.

Aconteceu no silêncio da minha própria alma.


Um comentário:

  1. Se eu fosse o diretor de uma editora famosa, faria um contrato com você com uma única cláusula: QUERO EXCLUSIVIDADE. Mais uma vez, parabéns! É uma delicia ouvir você nas palavras das suas crônicas

    ResponderExcluir