Guardar mágoas no fundo da gaveta


“Oh, baby, baby, it’s a wild world

It’s hard to get by just upon a smile...” Cat Stevens



O apartamento na Praia do Canto parecia suspenso no tempo. A luz âmbar do fim da tarde atravessava as cortinas de linho e repousava preguiçosamente sobre os móveis escuros encerados com um cuidado quase religioso. Havia cheiro de café recém-coado, de livros antigos e daquele silêncio típico das famílias que aprenderam a esconder os conflitos debaixo da boa educação.

Ricardo permanecia sentado perto da janela, segurando a xícara com as duas mãos, como se precisasse dela para não se desmontar. Sandra observava de longe, encostada na cristaleira. Os demais membros da família conversavam alegremente, sem nenhum compromisso com os dramas que habitavam na mente dos dois primos. Fazia anos que não conversavam de verdade. O aniversário da tia Adelaide apenas os colocara novamente no mesmo cenário, como dois personagens convocados para uma peça que nenhum deles desejava encenar.

Entre eles havia um passado mal resolvido. Não uma grande tragédia, dessas que viram manchete de jornal ou dividem famílias em tribunais, mas algo talvez mais comum e mais corrosivo: orgulho intelectual ferido. Uma discussão antiga sobre ideias, reconhecimento e autoria de um projeto acadêmico acabou se transformando na cisão no relacionamento e numa coleção de ressentimentos silenciosos.

Ricardo nunca conseguiu esquecer.

Na cabeça dele, cada frase atravessada continuava intacta, conservada como documento oficial em arquivo público. Nietzsche, pensou Sandra, chamaria aquilo de ressentimento: não apenas mágoa, mas a incapacidade de transformar uma ofensa em movimento de vida. O ressentido não reage de forma criadora; ele rumina. Revive. Reconta mentalmente. Alimenta-se do passado até transformar a dor numa espécie de identidade moral.

E Ricardo parecia confortável nesse lugar.

Havia nele uma rigidez quase elegante. O corpo ereto, o olhar distante, a maneira econômica de responder. Como se dissesse ao mundo: “Tenho razão, portanto não cedo”. Mas Sandra percebia que aquela postura escondia cansaço. O homem parecia carregar uma mala invisível cheia de frases antigas.

No rádio da sala, baixinho, tocava uma música melancólica dos anos setenta. Algo sobre amores, despedidas e coisas que não voltam mais.

— O café está excelente, Ricardo — disse Sandra, tentando romper o gelo.

Ele apenas assentiu.

O gesto mínimo dizia muito. Não havia agressividade explícita; também não havia entrega. Era como se cada palavra precisasse atravessar um tribunal interno antes de ganhar permissão para existir.

Sandra suspirou profundamente e pensou nas mudanças que aconteceram nos últimos anos. A juventude universitária cheia de certezas dera lugar a uma espécie de fadiga emocional. Já não tinha energia para cultivar disputas intermináveis. Descobrira, talvez tarde, que algumas dores sobrevivem justamente porque recebem atenção demais.

Olhou para o reflexo dos dois na cristaleira. Aquela imagem duplicada lhe trouxe à memória a ideia de Nietzsche que a acompanhava havia meses: o Eterno Retorno. A hipótese perturbadora de viver a mesma vida infinitas vezes, exatamente igual, sem alterar um detalhe sequer.

Ela pensou: “Se este encontro tivesse que se repetir eternamente, eu suportaria?”

A pergunta lhe caiu no peito como pedra.

Ricardo, provavelmente, suportaria. Afinal, ele transformara a própria mágoa em residência permanente. Havia certa segurança em continuar ofendido. O ressentimento oferece isso: uma narrativa pronta. O culpado já está definido, a dor já ganhou explicação, e a pessoa não precisa mais se reinventar.

Sandra, porém, estava cansada de carregar o passado como sentença.

Nietzsche falava também das três metamorfoses do espírito: o camelo suporta pesos; o leão aprende a dizer “não” às imposições; mas é a criança quem finalmente cria, brinca e recomeça.

Ricardo ainda parecia preso à primeira etapa. Carregava antigos “tu deves”, velhas cobranças, antigas feridas familiares e intelectuais. Sandra começava, aos poucos, a desejar a leveza da criança nietzschiana — não a infantilidade, mas a capacidade rara de criar novos sentidos sem permanecer escrava do que aconteceu no passado.

Ela tomou um gole de café e percebeu algo simples: não precisava vencer aquela disputa silenciosa, e este pensamento foi libertador.

Não havia necessidade de obter reconhecimento retroativo, nem de corrigir o passado. O que existira continuaria existindo. Nietzsche chamava de Amor Fati essa aceitação radical da existência — amar o destino não porque ele foi perfeito, mas porque foi inevitavelmente seu.

Sandra compreendeu, então, que superar não era esquecer por completo. Era parar de oferecer moradia fixa àquilo que feriu.

O ressentimento de Ricardo parecia uma âncora lançada ao fundo do mar. O esforço de Sandra era aprender a navegar apesar dela.

A conversa naquela noite continuou superficial. Comentaram sobre antigos professores da UFES, sobre política, sobre o calor absurdo daquele verão capixaba. Nada grandioso aconteceu. Nenhum pedido de desculpas, nenhum abraço cinematográfico, nenhuma reconciliação definitiva.

Mas algo pequeno mudou. Sandra já não precisava que Ricardo mudasse para que ela pudesse seguir em paz.

Quando foi embora, atravessou a sala lentamente. Antes de sair, olhou uma última vez para o primo imóvel perto da janela. Sentiu ternura, não superioridade. Porque entendeu que algumas pessoas guardam as mágoas no fundo da gaveta por tanto tempo que acabam esquecendo onde colocaram a chave.

Lá fora, a noite começava a cair sobre Vitória. E, pela primeira vez em muitos anos, Sandra sentiu que o passado já não lhe ocupava todos os cômodos da alma.


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