Naquela semana, ela dormira mal em quase todas as noites. Não dizia isso com dramatização, nem com aquele tom heroico de quem transforma sofrimento em identidade. Falava da insônia como quem comenta uma infiltração antiga no teto da casa: algo inconveniente, persistente e já incorporado à rotina. Havia noites em que conseguia descansar por três ou quatro horas seguidas; em outras, porém, ficava vagando pela madrugada com os olhos abertos e a mente acesa demais para aceitar o silêncio.
Foi numa dessas noites que ele apareceu em sua cozinha. Trouxe pão, café e a falsa esperança de que a companhia ajudasse. A cidade dormia do lado de fora, mas ali dentro a luz amarelada sobre a mesa parecia criar um pequeno território suspenso do resto do mundo.
Ela mexia lentamente a colher na xícara enquanto observava o relógio pendurado na parede.
— O pior da insônia não é ficar acordada — comentou. — O pior é perceber o quanto a cabeça funciona quando todo o resto para.
Ele achou curioso aquele comentário. Durante o dia, ela parecia prática, objetiva, capaz de resolver problemas com uma serenidade admirável. Mas, nas madrugadas, surgia outra versão dela: mais filosófica, mais inquieta, quase excessivamente lúcida.
Talvez fosse isso que a aproximava tanto de Emil Cioran. Ela havia passado meses lendo e remoendo Nos Cumes do Desespero e dizia que poucas pessoas haviam escrito de maneira tão honesta sobre o peso da consciência. Para Cioran, a insônia não era apenas um problema físico; era uma experiência existencial. Em muitos de seus textos, ele descreve as madrugadas como momentos em que a lucidez se torna quase insuportável, porque todas as distrações do cotidiano desaparecem e a pessoa fica sozinha diante de si mesma.
Ela concordava.
— De madrugada, ninguém consegue mentir direito para si mesmo — disse, olhando pela janela escura.
Ele percebeu que havia verdade naquilo. Durante o dia, compromissos, mensagens, trabalho e pequenas urgências criavam uma espécie de proteção contra certos pensamentos. Mas a noite desmontava essas defesas com uma crueldade silenciosa. Sem o ruído do mundo, as preocupações ganhavam tamanho. As lembranças voltavam com nitidez exagerada. Decisões antigas pediam revisão. Medos pequenos cresciam como sombras projetadas na parede.
Ainda assim, havia algo paradoxal naquela vigília.
Ela contou que algumas das melhores soluções para problemas difíceis surgiam justamente às três da manhã. Não porque a insônia fosse romântica e inspiradora, mas porque a mente parecia cavar mais fundo quando o descanso não vinha.
— É estranho — comentou. — Quanto mais cansada eu fico, mais certas coisas aparecem com clareza.
Ele lembrou então de outro ponto importante do pensamento de Cioran: a ideia de que a lucidez raramente traz conforto. Diferente de filosofias que prometem paz interior como consequência do conhecimento, Cioran via a consciência extrema quase como uma ferida. Saber demais sobre si mesmo, sobre o tempo e sobre a fragilidade da vida podia gerar inquietação permanente.
Talvez fosse exatamente isso que acontecia ali, naquela cozinha silenciosa.
Ela não parecia alguém derrotado pela insônia. Parecia alguém tentando negociar com ela. Em vez de lutar inutilmente contra cada minuto desperto, aprendera a usar parte da madrugada para organizar pensamentos. Fazia listas, escrevia frases soltas em cadernos, revisava decisões importantes. Havia noites em que chorava sem motivo claro; em outras, apenas observava o céu clareando lentamente atrás dos prédios.
— A madrugada amplia tudo — disse ela. — O medo, a tristeza… mas também a percepção das coisas.
Ele ouviu aquilo em silêncio. Pela primeira vez, começou a suspeitar que certas pessoas desenvolvem uma intimidade rara consigo mesmas justamente porque não conseguem dormir como as outras. É claro que havia sofrimento ali: o cansaço constante, a irritação, a sensação de viver fora do ritmo comum da humanidade. Mas existia também uma espécie de honestidade brutal.
A insônia obrigava aquela mulher a permanecer diante dos próprios pensamentos sem distrações suficientes para escapar deles.
Lá fora, os primeiros sinais da manhã começavam a aparecer. O céu deixava lentamente de ser preto para adquirir um azul desbotado. Curiosamente, ela parecia menos angustiada do que algumas horas antes.
Talvez porque sobreviver à madrugada produzisse uma pequena sensação de vitória.
Ela terminou o café já frio e sorriu com um cansaço tranquilo.
— Nem toda noite é fértil — disse. — Mas quase nenhuma é vazia.
Ele saiu dali pensando nisso. Em como o escuro pode ser mais do que ausência de luz. Para algumas pessoas, a madrugada se transforma num território de confronto entre lucidez e exaustão, entre pensamento e silêncio. E talvez Emil Cioran tivesse razão ao afirmar, ainda que de maneira amarga, que existem consciências incapazes de descansar completamente.
Enquanto caminhava pela rua quase deserta, ele percebeu que aprendera algo importante naquela cozinha: há dores que não desaparecem, apenas mudam de forma. E há noites em que o pensamento cresce tanto no escuro que acaba iluminando, mesmo sem querer, aquilo que o dia inteiro tentou esconder.
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