O espelho do banheiro às seis da manhã
por Giovanni Angius, em 24/4/2026.
Às seis da manhã, a casa ainda parecia dormir por dentro. O relógio da cozinha marcava a hora com uma insistência burocrática, e a luz fria do banheiro fazia tudo parecer mais sincero do que deveria. Ali estava ele, diante do espelho, espuma no rosto, navalha na mão, uma toalha no ombro e uma lista inteira de obrigações esperando do lado de fora da porta.
O casamento da filha seria naquela tarde.
Havia flores para conferir, parentes para receber, atraso de fornecedor para resolver, terno para buscar, motorista para coordenar, discurso para improvisar e, como sempre, pequenos incêndios emocionais para apagar sem alarde. Desde cedo, o telefone vibrava sobre a pia como se o mundo inteiro dependesse dele para funcionar.
Mas naquele instante, por dois ou três minutos, o mundo precisaria esperar. Porque havia um homem tentando acertar a linha da barba enquanto olhava para alguém que conhecia há décadas e, ainda assim, mal compreendia.
O espelho tem esse talento desagradável: mostra o rosto e insinua perguntas.
Ele esticou a pele da bochecha esquerda. Reparou nos fios grisalhos perto da orelha. Surgira também uma ruga nova, discreta, porém ambiciosa, instalada entre as sobrancelhas. A juventude não avisa quando vai embora; apenas passa a delegar funções.
Pensou na filha de vestido branco e sentiu aquele orgulho que vem misturado com uma leve perda. Não uma perda triste, exatamente. Algo mais sofisticado. Uma espécie de despedida feliz. Criou, cuidou, protegeu, ensinou a andar de bicicleta, a atravessar a rua, a desconfiar de promessas fáceis. Agora ela pisaria sozinha numa vida que não caberia mais em seus conselhos.
Sorriu sozinho. Depois parou de sorrir. Uma pergunta entrou sem pedir licença: e ele?
A filha começaria um novo ciclo. Mas e o pai? Em que ponto da estrada havia deixado certas vontades largadas no acostamento? Onde estavam aquele curso que nunca fez, a viagem adiada, o violão que comprou e mal tocou, o livro começado em três janeiros diferentes, a coragem de mudar o trabalho que apenas suportava?
Passou a lâmina devagar no queixo. Há dias em que a espuma da barba parece esconder mais que o rosto.
Lembrou-se de Søren Kierkegaard, que dizia ser a angústia uma vertigem da liberdade. Não medo de cair, exatamente, mas o espanto de perceber que se pode saltar. O abismo não assusta só pela profundidade; assusta porque revela a possibilidade.
Talvez fosse aquilo.
Não estava angustiado apenas com o casamento, os gastos, os parentes inconvenientes ou a chuva ameaçando estragar as fotos. Estava angustiado porque, ao ver a filha seguir a própria vida, percebia que ele também continuava livre para refazer a dele. E isso, para um adulto ocupado, é uma notícia quase inconveniente.
É mais fácil reclamar da rotina do que admitir que ainda se pode mudá-la.
A pia tinha duas torneiras antigas que nunca fechavam direito. Pingavam em intervalos irregulares, como pensamentos insistentes. Ele enxaguou a lâmina, olhou de novo para o espelho e teve a impressão de que o homem refletido parecia cansado, sim, mas não derrotado. Havia diferença.
Cansaço é o peso do caminho. Derrota é desistência. A maior parte das pessoas confunde uma coisa com a outra.
Do quarto veio o som de gavetas abrindo. A esposa já acordara. Em algum lugar da casa, alguém procurava uma extensão elétrica ou uma gravata desaparecida. O grande espetáculo social do casamento começava seus ensaios finais. E ele ali, discutindo metafísica com o azulejo.
Secou o rosto.
Pensou então que talvez liberdade não fosse largar tudo e comprar uma passagem só de ida para lugar nenhum, como sonham os cansados nas segundas-feiras. Talvez liberdade fosse algo menos cinematográfico e mais difícil: reorganizar a própria vida sem precisar destruí-la inteira.
Telefonar menos para o trabalho aos domingos. Voltar a estudar. Dizer alguns nãos atrasados. Cuidar do corpo com menos promessas e mais constância. Convidar a esposa para viajar sem esperar bodas redondas. Retomar o violão desafinado. Escrever a primeira página sem exigir a última pronta.
Talvez a liberdade more em pequenas desobediências contra a inércia.
Vestiu a camisa. Abotoou devagar, como quem fecha um raciocínio. Antes de sair, lançou ao espelho um último olhar. Não buscava juventude, nem respostas definitivas, nem reconciliação completa com o tempo. Buscava apenas reconhecer-se.
Conseguiu o suficiente.
Abriu a porta do banheiro e entrou no corredor já tomado pelo movimento da casa. A filha ria em algum cômodo. Alguém chamava seu nome. O dia corria para cima dele com todas as suas urgências.
Mas agora havia algo diferente. O homem que saiu dali ainda tinha compromissos, contas, responsabilidades e pressa. Continuava o mesmo pai, o mesmo marido, o mesmo profissional. Só carregava uma novidade discreta: a suspeita de que sua vida ainda não estava pronta.
E às vezes, às seis da manhã, diante do espelho do banheiro, isso já basta para começar de novo.
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