Não era exatamente um amigo — desses que a gente chama para um café demorado ou para dividir silêncios confortáveis. Também não era um estranho. Era um conhecido de rotina, desses que aparecem de tempos em tempos como se a vida fosse um corredor onde as pessoas se cruzam sem necessariamente caminhar juntas.
Quando soube do colapso nervoso, a notícia veio como vêm essas coisas hoje em dia: rápida, seca, quase sem contexto. Hospital, atendimento a tempo, recuperação em casa. Um susto. Mais um entre tantos que andam acontecendo por aí, como se o mundo tivesse decidido testar os limites de todo mundo ao mesmo tempo.
O encontro aconteceu por acaso. Ele parecia fisicamente melhor — mais magro, talvez, ou apenas mais quieto. Havia uma espécie de pausa nele, como se alguém tivesse finalmente apertado um botão que ele mesmo ignorava há anos. Conversaram.
Falava com uma lucidez que impressionava. Sabia exatamente o que precisava mudar: o ritmo de trabalho, a forma como dizia sim para tudo, o modo como deixava o dia ser consumido por urgências alheias. Sabia. Mas não fazia.
— Eu sei o que tem que ser feito — disse, com um meio sorriso cansado —, mas não consigo fazer.
Era como assistir a alguém descrevendo perfeitamente a saída de um labirinto enquanto permanecia parado no centro dele.
Disse que já havia tentado listas. Muitas listas. Listas de tarefas, de metas, de prioridades. Comprou agendas, baixou aplicativos, organizou horários. Nada durava. No começo, funcionava por alguns dias, talvez semanas. Depois, a vida voltava a engolir tudo.
Foi aí que, sem muita cerimônia, surgiu Sêneca na conversa. Não ficou claro quem trouxe o nome primeiro, mas se encaixou como uma peça antiga que ainda faz sentido.
Ele mencionou, meio de memória, a ideia central de Sobre a brevidade da vida: não é que a vida seja curta — nós é que a desperdiçamos.
Houve um silêncio breve depois disso.
— Eu acho que desperdicei bastante — disse ele, olhando para um ponto qualquer.
A resposta veio quase automática, mas sem tom de lição:
— A gente só tem o presente. O passado não muda, o futuro não garante nada.
Ele assentiu, como quem já sabia disso também. Sabia de tudo, aliás. Esse era o problema.
Porque saber, como ficou evidente naquela conversa, não é o mesmo que viver de acordo com o que se sabe.
Sêneca, em seus textos, criticava justamente essa ilusão de abundância de tempo. Dizia que as pessoas protegem seus bens com zelo, mas entregam o tempo — o único recurso verdadeiramente insubstituível — a qualquer distração, a qualquer exigência externa. Não por maldade, mas por descuido.
Aquele homem parecia um exemplo vivo disso.
Sua vida, pelo que contou, era uma sucessão de demandas que não eram exatamente dele. Expectativas de outros, prazos de outros, urgências de outros. Ele havia se tornado, aos poucos, um gestor da vida alheia, enquanto a própria existência ficava em segundo plano.
— No fim — disse ele —, acho que eu existi mais do que vivi.
A frase ficou no ar, pesada, porque não era dramática. Era simples. E talvez por isso mesmo, mais verdadeira.
Ele não parecia alguém em busca de grandes mudanças revolucionárias. Não falava em largar tudo, viajar o mundo ou reinventar a própria identidade. Falava de coisas menores — e, paradoxalmente, mais difíceis: organizar o tempo, escolher melhor o que merece atenção, aprender a dizer não.
Coisas simples. Mas nada fáceis.
A tal da lista, que dava título à conversa quase sem querer, reapareceu no fim.
— Talvez eu precise de uma lista diferente.
— Diferente como?
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Menos coisas. E mais verdadeiras.
Não era exatamente uma inovação metodológica. Não havia ali nenhuma técnica inédita de produtividade. Mas havia algo mais raro: uma tentativa honesta de alinhar o que se faz com o que se sabe.
Sêneca também alertava sobre isso: não basta acumular ensinamentos como quem coleciona objetos. É preciso incorporá-los, vivê-los, transformá-los em prática. Caso contrário, o conhecimento vira apenas mais uma forma de ilusão.
Despediram-se sem promessas.
Ele seguiu seu caminho, ainda em recuperação — o corpo respondendo melhor, a mente tentando acompanhar. Havia dúvidas, claro. Sobre se conseguiria, de fato, romper com o padrão que o levou até ali. Sobre se a lucidez resistiria ao retorno das pressões cotidianas.
Mas havia também algo novo, ainda que discreto.
Uma consciência mais nítida de que o tempo não falta — é mal distribuído. E de que viver não é apenas continuar, dia após dia, cumprindo tarefas, mas escolher, com algum cuidado, quais delas realmente merecem ocupar o espaço limitado da existência.
Talvez sua nova lista nunca fique pronta. Talvez seja reescrita muitas vezes.
Mas, se houver algum progresso, não estará na quantidade de itens riscados — e sim na coragem de deixar de lado aquilo que, por muito tempo, ocupou espaço sem nunca ter merecido.
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