por Giovanni Angius, em 25/4/2026.
Aquela mulher sempre teve excelentes motivos para adiar. Não estabelecia desculpas baratas, dessas que se desmontam ao primeiro vento. Motivos sólidos, bem acabados, quase elegantes. Na juventude, faltava tempo. Na fase adulta, faltava estabilidade. Depois, vieram as contas, os filhos, os compromissos, a fadiga, o barulho do mundo. Mais tarde, surgiu um argumento ainda mais sofisticado: agora faltava energia.
E assim foi levando a vida com uma habilidade rara: a de postergar com inteligência.
Entre os muitos projetos guardados em gavetas mentais, havia um que nunca morria. Um romance. A ideia lhe surgira cedo, quase pronta, como certas visitas inesperadas que entram sem bater. A história da família que deixava sua terra natal no início do século XX, atravessava o oceano em busca de um futuro melhor e, aos poucos, perdia o vínculo com aqueles que permaneceram na terra. Cartas rareando, sobrenomes deformados pela língua estrangeira, fotografias sem legenda, memórias desbotadas. Havia fatos reais misturados à invenção, o que lhe dava ainda mais valor. Não seria apenas um livro; seria uma espécie de resgate. Mas resgates também podem esperar.
De vez em quando, ela abria um caderno novo. Comprava boas canetas. Organizava pastas no computador. Lia sobre técnicas narrativas. Assistia a entrevistas de escritores. Fazia listas de capítulos. Pesquisava navios da época, portos antigos, mapas de imigração. Trabalhava bastante no entorno sem tocar a obra em si. Era uma pessoa produtiva nas margens.
Se alguém perguntasse por que ainda não começara, sempre tinha respostas prontas. Queria maturidade suficiente para fazer jus ao tema. Precisava de mais dados históricos. Um romance exige disciplina, e disciplina requer uma fase mais calma da vida. Além disso, não se deve escrever apressadamente algo tão importante. Tudo muito sensato. Tudo muito razoável. Tudo muito eficiente — para não escrever uma linha.
No fundo, desconfiava do mecanismo, mas não o desmontava. Há aqueles que preferem conviver com a poeira a mover os móveis e, muitas vezes, fingir que não se é livre é mais confortável.
Foi então que, certa noite, ao arrumar uma estante, encontrou um papel antigo. Nele, sua própria letra jovem descrevia a primeira cena do romance: “... uma mala fechada às pressas, uma mãe olhando para trás, um menino sem entender a despedida…”. Leu aquilo e sentiu um desconforto estranho, como quem recebe uma carta enviada por si mesma décadas antes. Não era saudade. Era flagrante.
Jean-Paul Sartre chamava de má-fé essa curiosa capacidade humana de mentir para si mesmo sem perder a pose. Não se trata de enganar os outros, o que já daria trabalho suficiente. Trata-se de agir como se a própria vida estivesse sendo conduzida por forças externas inevitáveis. O sujeito diz: “não posso”, quando talvez o mais honesto fosse dizer: “não quero pagar o preço”.
Percebeu, assim, sentada no chão, entre livros empoeirados, que jamais lhe faltara tempo absoluto. Faltara escolha assumida. Escrever exigiria sacrificar outras coisas: conforto, distrações, a imagem romântica de “autor em potência”. Enquanto o romance permanecia apenas possível, era perfeito. Nenhum capítulo ruim, nenhuma crítica, nenhum fracasso. No reino do adiamento, tudo nasce genial. Começar seria arriscá-lo ao mundo.
Por isso procrastinar pode ser tão sedutor. Não é mera preguiça; às vezes é estratégia de autopreservação. Quem adia indefinidamente conserva intacta a fantasia de que poderia ter sido extraordinário. Quem faz, ao contrário, corre o risco de descobrir seus limites. E há quem prefira o brilho imaginário à luz imperfeita do real.
Nos dias seguintes, observou sua rotina como um investigador observa um suspeito conhecido. Reparou na facilidade com que surgiam tarefas urgentes justamente quando pensava em escrever. A lâmpada da cozinha precisava ser trocada. O armário merecia reorganização. Notícias importantíssimas exigiam leitura imediata. Até a vontade súbita de aprender marcenaria apareceu. A mente, quando quer fugir, é inventiva.
Mas algo mudara. Já não conseguia acreditar completamente nas próprias justificativas. E quando a desculpa perde a fé de quem a produz, ela envelhece rápido.
Numa manhã comum, sentou-se à mesa sem solenidade. Não comprou caderno novo. Não esperou inspiração. Não reorganizou arquivos. Apenas abriu um documento em branco e escreveu a cena da mala, da mãe e do menino. Ficou ruim. Naturalmente ficou ruim. Releu e viu excessos, frases tortas, emoção demais num trecho, de menos noutro. Sorriu.
Era a primeira imperfeição concreta de um projeto que passara anos sendo uma perfeição imaginária.
Talvez tenha entendido, enfim, que liberdade não é fazer tudo no momento ideal. É responder pelo que se faz — e pelo que se evita fazer. A vida inteira terceirizara suas escolhas ao calendário, ao cansaço, às circunstâncias. Agora via que até a omissão carrega assinatura. Tomou consciência de que cada gesto é uma afirmação de quem decidira ser.
Escreveu mais duas páginas naquele dia.
A mudança de vida não foi imediata. Continuou adiando pequenas coisas, perdeu tempo com banalidades, inventou pretextos menores. Ninguém se transforma por decreto. Mas havia uma diferença essencial: já não procrastinava inocentemente.
E isso, embora pareça pouco, era o começo de alguma honestidade consigo mesma.
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