Todo prédio tem seus ruídos oficiais: o portão que range, a moto que chega tarde, o cachorro do terceiro andar que late para existências invisíveis, a descarga apressada de algum vizinho e o arrastar de cadeiras em horários impróprios. O salto alto que não para de andar pela casa toda, uma jornada sem fim. Mas havia também o silêncio do elevador, e esse ninguém costumava notar.
Era uma mudez particular. Não o silêncio puro, impossível nas cidades, mas em suspensão. Assim que a porta metálica se fechava, parecia que o mundo lá fora ficava em pausa por alguns segundos. O elevador subia ou descia carregando sacolas, pressas, perfumes, problemas existencais e pequenas tragédias domésticas, tudo em absoluto constrangimento.
Naquela manhã de terça-feira, entrou primeiro o morador do 702. Terno azul, pasta preta, olhar de quem já estava atrasado desde 1998. Apertou o térreo e ficou examinando os números vermelhos no painel como se fossem ações da bolsa. No quarto andar entrou a senhora do 403, trazendo uma planta no colo e um cheiro de café recém-passado. No sexto, juntou-se o rapaz do 601, fones no ouvido, roupa de academia, expressão neutra de estátua moderna.
Os três desciam juntos, unidos apenas pelo cabo de aço e pela inconveniência da proximidade.
Ninguém se olhava. Cada um mantinha a antiga liturgia dos elevadores: fixar os olhos num ponto inexistente, tossir discretamente, conferir o celular sem necessidade ou estudar o teto como se houvesse ali afrescos renascentistas.
O narrador daquela cena — se existisse um narrador escondido na luminária — talvez lembrasse de Martin Heidegger, filósofo alemão que observou como o ser humano vive lançado no mundo, mergulhado em tarefas, hábitos e expectativas. Para ele, grande parte da vida corre sob o domínio do impessoal, aquilo que ele chamou de das Man, o “se”. “Se faz assim”, “se diz isso”, “se evita conversa no elevador”.
E como o “se” mandava, ninguém falava.
A senhora da planta até ensaiou um “bom dia”, mas o 702 consultava o relógio com severidade, e o 601 balançava levemente a cabeça ao ritmo de alguma música privada. O cumprimento morreu antes de nascer, como tantos projetos humanos.
No quinto andar, o elevador deu um pequeno tranco.
Nada grave. Apenas um soluço mecânico. Mas bastou para romper o encanto da impessoalidade. O homem do terno levantou os olhos. A senhora apertou a planta contra o peito. O rapaz tirou um dos fones.
— Ih — disse ele.
Foi a primeira palavra real daquele encontro.
O elevador seguiu normalmente, porém algo já havia mudado. O susto mínimo lembrou aos três que estavam ali juntos, de carne, osso e vulnerabilidade. Não eram apartamentos empilhados em caixas numeradas; eram pessoas dividindo a mesma caixa menor.
— Esses elevadores andam estranhos — comentou a senhora.
— Verdade — respondeu o homem do terno, com voz surpreendentemente gentil. — Semana passada travou no oitavo.
— Sério? — perguntou o rapaz, agora completamente sem fones.
E pronto. O mundo se abriu em conversa de trinta segundos.
Descobriu-se que a planta era uma jiboia teimosa, resistente à falta de luz; que o rapaz trabalhava à noite e treinava cedo para espantar o cansaço; e que o homem do terno era contador e tinha medo secreto de lugares fechados, ironia que a vida lhe cobrava diariamente.
Quando chegaram ao térreo, já não eram estranhos absolutos. Também não eram amigos, claro. Ninguém sairia dali para jantar junto ou fundar uma república comunitária. Mas havia surgido algo raro nas cidades: o reconhecimento mútuo.
Heidegger talvez sorrisse, se os filósofos sorrirem dessas coisas. Porque ele dizia que o cotidiano tende a nos dissolver no anonimato das rotinas. A gente acorda, trabalha, responde mensagens, paga contas, repete opiniões prontas e circula entre outros como quem desvia de postes. Vive-se muito, presencia-se pouco.
No elevador daquele prédio, por alguns segundos, a engrenagem falhou — e ainda bem.
O 702 segurou a porta para a senhora sair com a planta. O rapaz desejou bom treino para si mesmo, num gesto confuso que fez os outros rirem. Cada um seguiu seu rumo pela calçada, novamente engolido pela agenda, pelo trânsito, pelas notificações.
Mas agora o prédio tinha menos paredes invisíveis.
Nos dias seguintes, passaram a se cumprimentar. Coisa simples. Um “bom dia”, um “vai chover”, um “como vai a planta?”. Nada que mude a história universal, embora talvez mude a história miúda de uma terça-feira qualquer.
Porque às vezes o sentido da existência não aparece em grandes revelações, e sim no instante em que a porta se fecha, o elevador range, e alguém resolve quebrar o silêncio herdado.
No fundo, o ser-no-mundo também mora em condomínio.
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