A melancolia das oito horas

 

Houve um tempo em que o domingo tinha relógio próprio. Não precisava olhar para ponteiro nenhum. Bastava ouvir certos sons da casa: o prato sendo guardado mais cedo, a sandália arrastando no corredor, o banho tomado sem pressa, a toalha pendurada na porta, o cheiro de café requentado vindo da cozinha. E, principalmente, bastava esperar chegar a noite.

Às oito horas, em muitas casas brasileiras, acontecia uma pequena cerimônia involuntária. A televisão, instalada como altar doméstico da época, anunciava com trombetas modernas:

— É fantástico… tchan…!

Pronto. Estava decretado. O domingo acabara.

Para aquele homem, então menino, aquilo nunca foi apenas a abertura de um programa. Era o som do portão fechando. O aviso de que a liberdade breve do fim de semana recolhia suas asas e partia sem se despedir. No dia seguinte haveria escola, depois trabalho, obrigações, filas, horários, cobranças, despertador. A semana vinha vindo como trem em trilho reto: impossível de impedir.

Ele percebia um aperto estranho no peito, embora ainda não soubesse dar nome ao que sentia. Não era exatamente tristeza. Também não era medo, mas uma mistura de tédio antecipado com saudade do que ainda nem tinha acabado. Uma sensação de vazio, dessas que entram sem bater e sentam no sofá da sala.

Curioso como certas vinhetas conseguem dizer mais sobre a existência humana do que muitos discursos.

Anos depois, já adulto, ao ler Blaise Pascal, encontrou palavras antigas para explicar aquele mal-estar dominical. O pensador francês do século XVII dizia que grande parte da infelicidade humana nasce da incapacidade de permanecer em repouso, sozinho, num quarto. Quando cessam as distrações, o homem se vê diante de si mesmo. E isso nem sempre é agradável.

Pascal chamava de divertissement o conjunto de distrações que usamos para fugir dessa confrontação interior. O termo não significa apenas “diversão”, no sentido moderno e leve da palavra. Trata-se de tudo aquilo que nos desvia de pensar na própria condição: jogos, conversas vazias, ambições incessantes, ruídos, tarefas sem necessidade, agitação constante. Não buscamos necessariamente a coisa em si, dizia ele, mas o movimento que ela produz.

Em outras palavras: às vezes a pessoa não quer a festa; quer não ficar sozinha consigo mesma. Não quer a viagem; quer o intervalo entre uma angústia e outra. Não quer a televisão; quer o barulho dela ocupando a casa e impedindo o silêncio de falar.

Talvez por isso o domingo à noite fosse tão desconfortável. Durante o dia ainda havia distrações disponíveis: almoço em família, futebol, visita, cochilo, rua, conversa jogada fora, crianças correndo, sorvete, rádio ligado. Mas quando chegava a noite, as atividades começavam a se recolher como pássaros voltando ao ninho. Restava uma espécie de clareza. E a clareza, às vezes, assusta.

Aquela vinheta dominical não criava o vazio; apenas o revelava. Funcionava como sino de mosteiro ao contrário: em vez de chamar para Deus, chamava para a rotina. Em vez de elevar a alma, lembrava obrigações futuras, cadernos por arrumar, uniformes por passar, metas por cumprir. O mundo recomeçaria em poucas horas, indiferente aos desejos individuais.

O menino não conhecia Pascal, claro. Não sabia nada sobre sua obra Pensamentos. Mas intuía algo essencial: havia momentos em que a vida fazia menos barulho, e justamente por isso ficava mais nítida. O domingo à noite era um desses momentos.

Foi também ali que começou sua antipatia por certos programas de variedades. Não por desprezo cultural, nem por pose intelectual. Era mais simples. Ele percebia, mesmo sem formular, que muita coisa servia apenas para preencher o tempo sem tocar a alma. Luzes, risadas, auditórios, celebridades e falatório — tudo isso parecia espuma cobrindo um poço fundo.

Enquanto outros assistiam com alegria genuína, ele sentia cansaço. Havia ruídos demais para pouca substância.

Com o passar dos anos, descobriu que aquela sensação não era só dele. Muita gente conheceu a chamada “melancolia de domingo”, esse vazio coletivo que visitava bairros inteiros no mesmo horário. Cada um sofria à sua maneira: alguns comiam mais, outros discutiam por bobagem, outros ligavam para alguém sem assunto, outros aumentavam o volume da TV.

Hoje, o divertissement continua vivo, apenas mudou de roupa. Hoje talvez não entre pela vinheta da televisão, mas pela rolagem infinita do celular, pelos vídeos curtos, pelas notificações, pela necessidade de estar sempre ocupado. O mecanismo é antigo: se o silêncio ameaça surgir, corre-se para qualquer barulho. Pascal diria que nada mudou no coração humano.

Quanto àquele homem, ainda hoje, quando escuta certas músicas de abertura ou sons de programas antigos, sente um eco distante no peito. Não chega a ser tristeza. Tampouco nostalgia. É outra coisa: é a lembrança de que existiu um tempo em que, aos domingos, às oito da noite, o universo parecia suspirar fundo e dizer:

— Agora encare a si mesmo.


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