Caminhar ou pedalar
por Giovanni Angius, em 20/2/2026.
O homem tinha lá suas manias. Não eram muitas, mas eram fiéis. Uma delas era caminhar pelo calçadão da Praia de Camburi, em Vitória. Ia quase todos os dias. Não porque acreditasse piamente que aquilo lhe daria um abdômen trincado ou acrescentaria anos heroicos à sua expectativa de vida. Ia mais para arejar a cabeça. Caminhava para desalojar pensamentos, como quem abre as janelas da alma para entrar um pouco de vento do mar.
Naquela manhã, o céu estava naquele tom indeciso entre azul e branco lavado. O mar seguia seu próprio ritmo, indiferente às inquietações humanas. Ele caminhava no piloto automático, repassando mentalmente pequenas pendências do trabalho, lembrando de uma conta a pagar, de um e-mail que precisava responder, quando cruzou com uma jovem família.
Pai, mãe, uma criança que andava aos pulinhos e um bebê instalado soberano no carrinho. Cena comum. Vida acontecendo. Ao passar por eles, sem intenção alguma de ouvir conversa alheia, pescou um pedaço de frase que ficou ecoando como música chiclete.
— Mas que situação, hein? Está cada vez mais difícil andar por aqui em paz e segurança. Você percebeu a quantidade dessas bicicletas elétricas? E a velocidade? Repara na ousadia deles, passando tão perto, quase atropelando a gente…
Ele seguiu andando, mas já não estava mais só com seus pensamentos antigos. A indignação da mulher agora caminhava ao lado dele.
E, para ser honesto consigo mesmo, ela tinha um ponto. De uns tempos para cá, aquelas bicicletas elétricas tinham brotado como cogumelos depois da chuva. Silenciosas, rápidas, decididas. Algumas respeitosas. Outras nem tanto. O problema não era exatamente a tecnologia. Era o modo como ela vinha sendo usada — ou ignorada — nas regras mais básicas de convivência.
Veio-lhe à memória um episódio recente, no próprio bairro. Ao dobrar uma esquina, quase deu de frente com uma dessas máquinas. A bicicleta vinha na contramão, em velocidade que não combinava com a rua estreita, e o rapaz — talvez confiante demais — sem capacete, sem sinalização, sem qualquer sinal de que considerava a possibilidade de encontrar alguém ali. Por pouco não houve acidente. E o “por pouco” às vezes é um abismo inteiro.
Ele imaginou o transtorno. O susto. O desgaste. E se tivesse acontecido algo mais grave? Como explicar? Como viver depois? A imprudência de um poderia se transformar na dor permanente de muitos.
Continuou andando. Observava agora com mais atenção. Algumas bicicletas passavam pela ciclovia, como manda o figurino. Outras, porém, invadiam o espaço dos pedestres com a naturalidade de quem acha que tudo é pista. No calçadão, crianças corriam, idosos caminhavam devagar, casais conversavam distraídos. Era um território de passos humanos, não de motores elétricos, ainda que silenciosos.
Ele pensou em soluções, como todo cidadão que, por alguns minutos, sente-se convocado a resolver os problemas do mundo. Mais fiscalização? Sinalização mais clara? Multas? Campanhas educativas? Barreiras físicas? Logo percebeu que suas ideias eram tantas quanto vagas. Nenhuma delas dependia dele. Nenhuma estaria ao alcance de suas mãos naquele momento.
E aí, quase como quem muda de trilha sonora, lembrou-se de um velho princípio estoico que lera certa vez: preocupar-se apenas com aquilo que está sob seu controle. O resto — o comportamento alheio, as decisões públicas, a imprudência dos desconhecidos — pertence a outra esfera. Insistir em dominá-la é receita certa para a frustração.
Ele podia, isso sim, cuidar da própria atenção ao dirigir. Podia atravessar com mais cautela. Podia escolher os horários menos movimentados. Podia, no máximo, dar um passo para o lado quando uma bicicleta viesse afoita demais. O restante era vento — e vento não se segura com as mãos.
Quando chegou em casa, ainda havia um resquício daquela indignação emprestada. Entrou no banho como quem entra num pequeno ritual de encerramento. A água caiu sobre os ombros, morna, constante. O barulho do chuveiro abafou as buzinas imaginárias, as reclamações, os “quase acidentes”. Enquanto o shampoo fazia espuma, ele pensou que talvez o estoicismo fosse um pouco como aquilo: deixar a água correr sobre o que não se pode controlar.
Aos poucos, a cena da família, a esquina perigosa, as bicicletas apressadas foram escorrendo pelo ralo, misturadas à espuma branca que desaparecia sem resistência. Não que o problema tivesse sido resolvido. Mas, dentro dele, estava em paz provisória.
E, naquele instante simples — água caindo, vapor subindo, pensamento serenado —, o mundo lá fora podia continuar acelerado. Ele, por ora, tinha reduzido a própria velocidade.
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