Preto, o meu cachorro
- Marita, minha vizinha tem uma
cadela que deu cria e ela não sabe o que fazer com tanto cachorrinho. Posso
trazer um?
Era dona Luzia oferecendo para minha mãe um filhote de cão, na época em que morávamos na Gurigica. Dona Luzia trabalhava
em nossa casa. Antes, já fora a cozinheira da minha avó Malvina nos tempos da
pensão em Jucutuquara. A vida toda eu vi dona Luça, como nós a chamávamos, como uma senhora idosa que fazia parte da
família. Chegava pela manhã, ficava por ali, sentava em seu banquinho no canto da cozinha, conversava com quem estivesse na
casa, fazia o almoço e ia embora. Todos os dias.
E foi desse jeito que apareceu lá em casa um filhote, com pretos
muito preto e os brancos muito branco. O nome dele veio numa unanimidade na família:
Preto.
Preto permaneceu conosco durante muitos anos e morreu velho depois
de complicações no intestino.
Vários anos depois é que descobrimos que era um mestiço de border collie. E o descobrimos não porque
não fosse parecido como tal. Sim, ele era um bicho típico da sua raça, mas por
causa das poucas informações que dispúnhamos naquele tempo.
Era um cachorro muito bonito, peludo e muito inteligente.
Posso dizer mesmo que era um cão espirituoso e adorava brincar. Muito ativo,
vivia correndo pelo quintal e não podíamos descuidar do portão, já estava ele
fugindo para a rua. Voltava sempre para casa, mas sempre sujo, fedorento e às
vezes estropiado e machucado. Em certa ocasião, ele passou quatro dias fora. Acostumamos
com as fugas de Preto para a gandaia.
Voltava cansado e faminto, e depois de um banho, coisa que
ele nunca apreciou, passava uma semana encostado dormindo e recuperando as
forças.
Fora isso, era um grande companheiro para todos nós.
Depois de certa idade, deu para ficar meio safado. Às vezes
não obedecia a ninguém, deitava num canto e fingia dormir. Só levantava dali
quando bem entendia.
O que mais chamava a atenção em Preto eram suas expressões. Era
típica sua cara de culpa quando fazia uma coisa que sabia estar errada, como
entrar em casa ou dar uma cagada na garagem. Outra cara era a de pidão. Quando estava
com fome ele olhava para mamãe com uma cara que era impossível alguém negar
comida para ele. Mas a melhor expressão era quando estava alegre. Parecia que
ria com aquela bocona aberta e arfante.
Certa noite, a madrugada já ia bem avançada, ouvimos os
latidos de Preto na rua, acordando a todos. Alguém falou:
- Deixaram o
portão aberto e Preto fugiu de novo.
Pelo barulho de Preto, logo após concluímos que alguém havia
entrado no quintal ou mesmo na casa. Papai se armou de um pedaço de pau e saiu
bravamente, mas meio assustado, à caça do feroz invasor, enquanto os demais da casa
fomos para a sacada da varanda ver Preto latindo na rua.
Papai deu de cara com um sujeito magro, suado e tremendo todo. Com a respiração
bem agitada tentava se esconder num canto escuro do quintal, e quando percebeu
que havia sido descoberto, correu em direção ao portão e fugiu em disparada, no
mesmo instante em que Preto entrou e de dentro continuou a latir mais alto
ainda.
Passado o susto, alguns vizinhos se aproximaram para saber se
estava tudo bem. E foi aí que um deles, Pedro Porca, convicto bebedor de pinga
do bairro comentou com papai:
- É seu
Toninho, cachorrinho esperto esse. Quando o ladrão entrou Preto saiu, e quando
o ladrão fugiu Preto entrou. Mas não parou de latir!
Gostei! Deu para matar as saudades de um cachorro alegre e que soube participar como ninguém da nossa vida familiar.
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