Gestos e palavras

 


A sala protegida com cortinas quase fechadas estava na penumbra no meio da tarde. O tempo parecia parado em um especial momento de calma entre os dois. Lado a lado em suas poltronas, eles se encararam numa ternura infinita reafirmando um amor de tantos anos. Um amor que transcendeu as dificuldades, as brigas, o sexo, os anos, numa demonstração de permanência ao longo do tempo. Transformaram-se em amigos amantes. Ou amantes amigos.

O Sol insistia em matizar as sombras do ambiente através de seus raios oblíquos por onde se via a poeira flutuando na atmosfera morna e silenciosa.

Nesse momento ele pousou suave e distraidamente sua mão na mão dela enquanto lia um livro. Não havia necessidade de palavras, mas apenas o olhar para que sentissem como que em voz alta: “Você está aqui e eu te amo”.

Ela assentiu balançando a cabeça e retribuiu o gesto com um sorriso que durou uma eternidade, ou assim pareceu para eles que experimentavam o ócio da aposentadoria depois de tantos anos de trabalho sem fim.

O silêncio era tanto que era possível ouvir um zumbido dentro da cabeça, experimentado apenas poucas vezes.

            - A música terminou. Troca o CD. Parece que o silêncio faz muito barulho.

Ele se levantou e foi ao aparelho de som.

Desta vez, embalado pelo súbito momento de carinho pela mulher, colocou uma música suave.

            - Esta peça é aquela que você gosta.

            - Qual é mesmo?

            - Aquela que ouvimos em Praga, no verão passado.

- Ah, sim, isso mesmo. Estava anoitecendo na praça, ao ar livre. Qual era mesmo a orquestra?

Tentou lembrar, mas não conseguiu.

            - Depois eu vejo no caderninho do diário de viagem e te falo.

            - Tá bom.

Ele voltou para a leitura.

Ela continuou com seus pincéis e tintas fazendo o acabamento em uma caixinha artesanal que daria de presente para uma prima que fazia aniversário naquela mesma semana.

Viviam há tanto tempo juntos e ainda tinham um apego grande um pelo outro. De vez em quando inventavam coisas para sair da rotina. Ora era uma atividade manual, depois um hobby, tocar violão, jantar fora de casa, viajar.

Viajar era um capítulo especial na vida dos dois. Viagens memoráveis para várias partes do mundo. Algumas vezes fizeram junto com os dois filhos.

Bem depois, com a sala agora quase às escuras, ela pousou os pincéis sobre a mesa, se levantou e disse:

            - Vou fazer um café. Você quer?

            - Boa ideia. Coloca água no fogo que eu arrumo a mesa.

O clima entre os dois naquele instante era tão agradável que dava pena que tivesse de ser interrompido, mesmo que para tomar um cafezinho. Um cafezinho tantas vezes compartilhado entre ambos ao longo da vida.

Tinham uma combinação tácita, não escrita. Quem chegasse primeiro em casa, depois do trabalho, esperaria pelo outro para o café. Mas, sempre se telefonavam durante a tarde para saber que traria o pão.

Na cozinha, a água esquentando no fogão, enquanto ela punha o pó na cafeteira, ele se aproximou e a abraçou carinhosamente por trás. Por um momento ela ficou parada sentindo o calor de ambos. Em seguida, ela ficou de frente e se beijaram.

            - Eu te amo, mulher.

            - Eu te amo, marido.


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