Às margens do Rio Marinho

 
Oh, seu doutor, nesse domingo de sol, o que me dá prazer é uma senhora pelada.

Clauduarte Sá

Ontem, logo depois que eu atravessei a Ponte do Camelo, dobrei à direita e segui em direção a Vila Velha. No caminho, ainda próximo à 2ª Ponte, passei ao lado do Rio Marinho. Devia ser horário de maré alta, ou então talvez tenha chovido muito na região, ou as duas coisas, sei lá, porque o nível do rio estava bem alto, a menos de um metro para chegar à rua.

Enquanto avançava lentamente no trânsito congestionado, do carro, pude observar uns meninos disputando uma pelada na rua que margeia o lado oposto do rio, formando uma cena típica de bairro de pouco movimento.

A correria da criançada e sua gritaria me levaram direto para minha infância em Jucutuquara. Naquela época eu vivia com os dedos dos pés esfolados de tanto jogar bola descalço na Avenida Paulino Müller, ainda pavimentada com paralelepípedos de pedra, próximo à Sorveteria Kimel e ao Bar Rock. Lá também havia um valão (hoje está todo coberto – virou uma galeria de esgoto).

Estava assim, esperando o trânsito andar, quando vi a bola dos meninos cair no rio. Todos correram para sua margem buscando uma maneira de resgatar a bola.

Do nada, surgiu uma comprida vara de madeira. Enquanto pescavam a bola, pude observar a superfície do rio. Sujo, feio, repleto de coisas boiando: Garrafas pet, sofá, fogão, um fusca meio submerso, a água imunda e parada. Demonstração perfeita de como a população, em parceria com as autoridades, tratam a natureza!

Com uma situação como essa, dá para reclamar quando chegam as grandes chuvas que faz o rio transbordar?

Especialmente em Vila Velha, eternamente lugar de toda enchente, não seria o caso de promover uma limpeza geral e uma posterior fiscalização, séria, contra o lançamento de lixo no rio?

Os garotos conseguiram a bola de volta e, mesmo suja, continuaram a brincadeira.

Logo em seguida, um menino levou um tranco de outro e caiu estatelado. Com a canela e o joelho arranhados, gritava de dor e xingava seu companheiro de bola, até que chegou uma senhora. Ela verificou o machucado do menino e o mandou entrar em casa. A mulher aproveitou para dar um esporro geral na garotada.

A pelada parou e os garotos se dispersaram.

Pensei como tudo é tão igual, apenas o tempo passou: A alegria, a correria e a força incrível da vida. Até aquela senhora, possivelmente a mãe do garoto machucado tinha a sua equivalente no meu tempo: Era dona Malvina Trovão, uma senhora que usava um imenso anel com pedra verde e quadrada, e que não podia ver a meninada jogando na rua que tentava capturar a bola. Aos gritos, dizia que não gostava de algazarra e que lugar de criança era na escola.

Tá certo!

Aqui eu devo lembrar que não se pode confundir Malvina Trovão com dona Malvina, minha avó, dona da pensão localizada na esquina do Bar Funil.

Quando o trânsito liberou a passagem, segui em frente, como, aliás, tenho feito por toda a vida. Seguir e frente!

Permanecem as recordações e a saudade.

Um comentário:

  1. Uma 100 hora Pelada
    Ah seu doutor nesse domingo de sol
    O que me da prazer e uma senhora pelada
    Corre, corre bola, corre perna
    Quem e vivo nesse lance
    Pensamento e pes no chao

    Pois todo povo brasileiro
    Traz no sangue esse gingado
    Todo molejo do mundo
    Nao dispensa u' boa pelada
    E tira da vida amarga
    A vantagem desse gol
    Gooooool...



    Tempos bons meu amigo, felicidade, sucesso
    ClauduArte Sa

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