Traição
Um conhecido se lamentou comigo recentemente sobre um revés que passou. Segundo ele, uma traição que o levou a pensar em fazer um desatino sem volta. Disse que, apesar de já ter superado a fase mais aguda do sofrimento, ainda agora tem que arcar com o ônus da traição: Os entraves em seus compromissos financeiros e as dificuldades na vida social. Ele demonstrou grande pesar ao me contar o sucedido e eu vi nele certo alívio em desabafar, mas ao mesmo tempo, um desconforto imenso por ter aberto sua vida mais íntima a outra pessoa. Além do sentimento de traição, de perda e de frustração, percebi também uma grande vergonha por ter relatado tudo pelo que passou. Em certos momentos, achei que ele tinha mesmo um misto de sentimento de culpa.
A história dele me fez lembrar a tia Maria, que costumava
dizer que as cobras têm por instinto picar e envenenar, e que é preciso agir
com cautela a qualquer aproximação que se faça a suas tocas. Nunca se sabe
quando elas estão prontas para o bote. Tia Maria, aliás, dona Maria, não é
minha tia. É uma velha amiga da família e eu a chamo de tia por afinidade desde
os tempos de infância. Bem velhinha, ela tem explicação para tudo, sempre uma
frase de efeito ou um pensamento moral.
Em seu relato, meu conhecido contou sobre a pessoa que achava
ser seu amigo e que o envolveu em uma trama que o fez perder todo o dinheiro
que tinha, estragar a hamonia entre seus familiares, e ainda quase perder o seu
negócio, não fossem medidas rápidas e rigorosas, teria falido e possivelmente
agora sem nenhum recurso para o seu sustento. Lamentou dizendo que jamais imaginou
ser enganado de maneira tão covarde.
A traição sofrida, segundo ele, se confirmou quando percebeu
que havia grandes retiradas no negócio e vagas explicações sobre a destinação
do dinheiro, e junto a isso, a tentativa de envolvimento de seu nome em
licitações fraudulentas. Nesse momento percebeu a quebra da confiança e o rompimento
da amizade.
A decepção tão grande que teve aconteceu na mesma proporção da
confiança depositada no ex-amigo. Ele acreditava sinceramente que havia
fidelidade no relacionamento, tanto profissional quanto pessoal, e que nunca
seria vítima de maquinações e fraudes.
Depois de tudo, ele próprio concluiu que não deveria esperar
nada das pessoas além daquilo do que cada um é capaz de dar. Se tivesse
percebido antes a índole do outro, por pouco que fosse, não teria confiado tanto
e, portanto, não teria se decepcionado.
- Ninguém dá mais do que tem dentro
de si mesmo. E se esse sujeito fez o que fez, é porque o que ele tinha dentro
de si era essa sujeirada toda. Um vil
que teve coragem de trair seu próprio irmão.
A base de um relacionamento sólido é a confiança mútua, mas
como avaliar o caráter de uma pessoa antes de confiar? Não há como viver se
policiando preventivamente e desconfiando de todo mundo à sua volta. A vida se
tornaria um inferno paranóico, com todos vendo, ou imaginando ver, inimigos em
potencial por toda a parte.
- O cara aparece
na sua vida, amigo, solícito, macio. Frequenta sua casa, ajuda, ampara, ouve,
aconselha. Aí chega um dia você percebe que não era nada disso: A lâmina fria e
dolorosa da traição penetra fundo no peito, rasga tecidos e ossos, fere mortalmente
aquilo que há de mais precioso que você achava que tinha: A amizade.
Depois de muito ouvi-lo, não soube o que dizer, apenas
permaneci calado ao seu lado. Após longo silêncio, ele disse que vai seguir com a vida, não
há outro jeito, mas nunca vai esquecer o golpe sofrido.
Sobre isso, tia Maria fala que em seus escuros e frios
esconderijos, sim, porque é aí onde normalmente estão, as cobras ficam à
espreita dos incautos que se aproximam demais, e traiçoeiramente os atingem com
sua peçonha, a mortal peçonha de que são portadores os seres rastejantes.
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