Manhã de carnaval

 
Um dia, daqueles que ficaram quase esquecidos na lembrança, perdidos entre as prateiras empoeiradas dos armários da memória, numa semana de carnaval, acordei bem cedo e fui à padaria comprar as coisas para o café da manhã da turma. Havia perto de trinta pessoas na casa, todos parentes que, aproveitando o feriado prolongado, se misturavam e se embolavam no aperto dos quartos, pelo corredor e no chão da sala.

Era uma casa de madeira localizada numa praia ao Norte de Vitória.

Na volta, carregado de sacolas com pão, queijo, mortadela, leite e outras coisas, já perto de casa, avistei as portas abertas do Bar do Cuca. Achei meio estranho por causa do horário, afinal, o povo vai ali à noite para beber, curtir a música ao vivo e a simpatia do proprietário, sempre cordial com suas brincadeiras com os fregueses e com seus comentários sempre vivos e sagazes. Conhecia a todos pelo nome e sempre que um novato chegava, perguntava logo como se chamava. E bastava apenas uma vez, não esquecia mais. Era uma das formas como conquistava as pessoas. Achei que abrir o bar tão cedo era algo incomum.

Cuca era um sujeito dado às coisas hippies e psicodélicas, e já era considerado meio ultrapassado no início dos anos 1980 em suas preferências e atitudes. Ele gostava muito de sua produção artística, bastante visual, caracterizada pelas gravuras espalhadas pelas paredes de seu boteco. As cores vivas de suas telas contrastavam com a meia-luz do ambiente do bar produzida pelas luminárias de palha e vime penduradas no teto e se aproximando bastante das mesas. Era um lugar meio escuro.

Quando me aproximei mais da porta, percebi que já havia gente lá dentro, incluindo um amigo de longo convívio. Ele estava encostado no balcão. Curioso, entrei para cumprimentá-lo e saber o motivo de sua presença ali. Será que ele já havia começado a beber tão cedo?

Na entrada do salão senti o cheiro asco de cinzeiro sujo misturado com vapores de álcool, evidenciando que a noite anterior fora bem movimentada no lugar.

Após cumprimentar os presentes, percebi logo que não eram bebuns, mas madrugadores em busca de seu abençoado desjejum após uma noitada de farra.

Para mim, aquilo não combinava com o lugar... Custei a acreditar que aquele mesmo botequeiro que virava as noites junto aos seus fregueses em meio a bebidas e tira-gostos, era capaz de se levantar àquela hora da manhã para servir o café. E pasmado, constatei que muitos dos presentes eram os mesmos que estavam ali na noite passada atrás de copos de cerveja e petiscos. Será que essa gente toda não foi para casa dormir?

Cuca então me explicou que a certa hora, manda embora os retardatários, fecha as portas e faz uma faxina em tudo. Aí chega o próximo turno para começar os preparativos do dia, começando pelo café da manhã. Para ele, descansar, só por volta das 9 da manhã.

Ah! Sim, agora faz sentido. Mas me pareceu estranho um quase hippie trabalhando tanto.

No meio da conversa com o amigo, chega um sujeito com a cara amassada de travesseiro e com uma banda de pão na mão. Alegremente, grita no balcão:

- Cuca, meu prezado, me dá aí um motivo bem forte para comer esse pedaço de pão!

E Cuca, sem perda de tempo e sem perguntar nada colocou um copo em cima do balcão e serviu uma pinga para o freguês.

Foi de um gole só!

Saí do bar dando risada e retornei à casa para preparar o café da família.

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