Coisas de Deus e coisas
dos homens
A multidão dos fiéis era
um só coração e uma só alma.
Ninguém dizia que eram
suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum.
Atos dos Apóstolos 4-32.
O pastor falava para o seu rebanho durante o culto. O assunto
tratado era sobre o que escreveu João, o evangelista, no capítulo 14: “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”.
Essas palavras despertaram a atenção de Sueli, uma mulher com
seus quarenta e tantos anos, e fizeram com que fosse arrancada de seus
pensamentos mais profundos naquele momento. Assistia ao culto sem participar
dele.
Passava por dificuldades em casa: O dinheiro não era
suficiente para todas as despesas cada vez maiores, tinha de apertar ainda mais
os gastos; O marido, por anos e anos, hostilizava sua opção religiosa e a sua frequência
à igreja, criticava sua ausência de casa durante os cultos; e os filhos que não
davam sossego na vizinhança e na escola, vira e mexe, surgiam reclamações por
causa de mau comportamento.
Passavam os minutos, o pastor continuava pregando e ela mais
distante em seus devaneios: - Quanta coisa para pagar, meu Deus, e o dinheiro
tão curto.
“Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará
também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas...”, clamava o
pastor.
- Mas como? Eu oro, eu creio... Mas é tão difícil, tudo é tão
difícil para mim. Trabalho com afinco na obra da igreja, participo e contribuo
com tudo. Quanto suor e sacrifício eu deixei aqui nesses bancos.
“E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para
que o Pai seja glorificado no Filho”, continuava o pastor.
- Quantas vezes eu busquei, quantas vezes pedi, e até agora,
o que tenho recebido é mais trabalho e sacrifício, desgosto e desânimo. A casa onde
moro é alugada, ainda não pude comprar uma. Não tenho bens e nem conforto, ganho
mal no meu trabalho.
“Qualquer coisa que me pedires em meu nome, vo-lo farei”,
falava o pastor, exaltado.
- Já pedi tanto, já implorei, já chorei muito. Anos a fio
passaram e minha vida não me trouxe alegria, até minha família está cada vez
mais em desarmonia.
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos”, quase gritava
o pastor.
- Mas eu amo Jesus. Eu tenho certeza que Ele me ama.
O discurso do pastor ia chegando ao seu final ao mesmo tempo
em que Sueli vinha se aproximando mais da realidade, emergindo de seus
pensamentos de desânimo: - Ando reclamando muito e Deus sabe o que faz. Se
minha vida está desse jeito, mas se eu quero que mude, então eu mesma devo me
esforçar, trabalhar mais para sair dessa situação. É isso mesmo! Quero mudar
tudo para resgatar a felicidade de viver junto com meu marido e meus filhos.
Inspirada e resoluta, ela retorna para casa com o firme
propósito de realizar mudanças: Melhorar a qualidade de sua vida,
tanto material quanto espiritual.
Ao passar pela porta da sala encontrou o marido emburrado
demonstrando insatisfação por vê-la chegar àquela hora. Não falaram nada um
para o outro.
Os filhos ainda não haviam chegado da rua.
Tudo normal, conforme era desde muito tempo.
Pela manhã, enquanto passava o café e punha a mesa, a
manchete no jornal chamou sua atenção com denúncias de desvio de dinheiro na Igreja
Cristã Maranata.
- Meu Deus! Como isso é possível?
Leu a reportagem avidamente e sua primeira reação foi de
incredulidade. Não é possível, pensou, justo na minha igreja. Uma instituição
sagrada e que cuida tanto em preservar sua imagem de seriedade. Um lugar que
inspira tanta confiança a todos.
- Tanto que trabalhei e tanto que confiei, e agora leio que
pessoas da cúpula da igreja são acusadas de desvio de dinheiro. Vinte e um
milhões de reais, informou a Polícia Federal em análise preliminar, mas pode
ser mais.
- A reportagem disse que parte do dinheiro roubado foi usada
para comprar apartamentos no Brasil e no exterior, para pagamento de cartões de
crédito e despesas pessoais do vice-presidente, do contador, de diáconos e pastores.
Além disso, trouxeram de fora do país, por meios ilegais, material suficiente
para montar uma emissora de televisão. Isso é contrabando. Isso não é correto.
Sueli chorou. Estava chocada.
No dia seguinte, triste, mas convencida que era mesmo verdade
toda aquela sujeira, mas ainda com sentimentos que oscilavam entre a negação e
a revolta, surgiram perguntas que se pregaram em sua mente: Por que pessoas em
que ela havia confiado tanto tiveram a coragem de manchar de forma tão vil a
Casa de Deus? O que foi feito com o dízimo que havia ofertado para a igreja, um
dinheiro que fazia tanta falta para o conforto de sua família?
Não tinha respostas. Sentia apenas uma tristeza que inundava
toda a sua alma.
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