Cena urbana
De frente para os carros,
o sinal fechado, um sujeito faz malabarismo na esquina movimentada da cidade.
Quando uma pessoa estabelece o hábito de só se deslocar com o
automóvel para fazer suas atividades diárias, corre o risco de não ver
situações incomuns ou pitorescas pelos cantos da cidade.
Mas quando caminha e se deixa levar pelo fluxo nas vias é
possível perceber detalhes que de dentro do carro não seria possível observar.
É como andar como um turista dentro de sua própria cidade tentando descobrir
coisas antes desconhecidas, ou tentando redescobrir a paisagem tantas vezes
repassada. Perder-se pelas ruas, andar sem rumo definido e parar em algum
boteco para um café ou uma água pode ser gratificante por causa de uma conversa
com alguém, sentir um sabor diferente, ou um olhar mais atento a algum ângulo
insuspeito na rua tantas vezes percorrida.
Observar aquela senhora apressada que atravessa uma rua se
arriscando por entre carros, ou aquele sujeito com o semblante fechado sentado
no banco do abrigo da parada de ônibus. Passar por trás do malabarista de sinal
de trânsito e observar sua performance pelo lado contrário: o seu esforço, o
suor na face sob o Sol e os detalhes da roupa nem sempre limpa e nem sempre bem
costurada.
Um dia desses, por causa da escassez de vagas para estacionar,
tive que parar meu carro bem distante do local onde tinha assuntos para
resolver no centro da cidade. Andei a pé por várias quadras. Foi nessa ocasião
que eu pude ver uma cena tipicamente urbana. Pela frequência com que deve se
repetir nos aglomerados urbanos acredito até ter se tornado banal: A
invisibilidade das pessoas no meio da multidão.
Devia passar das oito e meia da manhã e eu andava sob uma
marquise de um antigo edifício, desses que parecem estar lá desde sempre. Havia
uma lanchonete, tive vontade de tomar um café. Cheguei próximo ao balcão e me
atendeu um rapaz ainda com cara de sono. Havia três mesas no lugar ainda vazio
naquela hora do dia. Meu café chegou e enquanto bebia, vi no outro lado da rua três
policiais mantendo um grupo de pessoas, a maioria homens, encostados de frente
para uma parede enquanto procediam a uma revista. Pelo aspecto deles inferi que
se tratava de moradores de rua ou viciados em drogas. Ou ambas as coisas, vai
saber. Havia uma viatura com luzes de emergência funcionando, e estava
estacionada meio que atravessada com parte sobre a calçada e parte na rua,
obrigando os motoristas a diminuir a velocidade naquele ponto e fazer o desvio.
Não fosse pelo incômodo causado no trânsito, pequeno, é
verdade, se for levado em conta os grandes engarrafamentos a que está sujeita
diariamente a cidade, ninguém teria sequer percebido que se tratava de uma
operação policial.
Permaneci observando por instantes em busca de alguém que
estivesse passando nas imediações e que percebesse a movimentação, mas ninguém viu
ou reagiu. Daí, pensei que aquele fato, tão corriqueiro, era como algo
pertencente à própria paisagem urbana, algo como uma estátua numa praça
pública, ou uma árvore, mesmo que florida, numa calçada: Ninguém vê mais. É a
invisibilidade das pessoas no mundo.
Faz algum
tempo eu soube de uma dissertação de mestrado em São Paulo sobre esse assunto: Fernando
Braga da Costa, um professor que passou anos executando diariamente atividades
de gari nas vias da USP ao mesmo tempo em que ministrava normalmente suas aulas
naquele campus. Durante todo o tempo ele permaneceu invisível para os seus
conhecidos. Ninguém o viu. “Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser
invisível”.
Por que será que pessoas não veem pessoas?
Será que cada um se considera tão importante ou que seus
assuntos e problemas são tão mais urgentes que o impede de enxergar que há
outras pessoas à sua frente?
Segundo o professor Fernando, a resposta para essas questões
é explicada pela função social de cada um, ou seja, pessoas com cargos braçais
e de menor preparação acadêmica não são vistas por outras pessoas.
É. Pode ser. Mas é chocante viver a experiência, mesmo que do
outro lado da cena, como um mero expectador ocasional, e também invisível.
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