Justo e perfeito
Oh! Quam bonum et
jucundum habitare fratres in unum.
S. 133
A tradição maçônica é muito antiga e há registro de fatos
documentados a centenas de anos. Para além daquilo que possui evidências históricas,
o que se diz e o que se vê é pura especulação. E é muita coisa recentemente publicada,
às vezes chegando à beira do fantástico. Há quem diga que a Maçonaria surgiu na
época de Salomão, e há aqueles que a levam até Adão e Eva. Muitos falam em
conspiração, domínio do mundo, domínio do mal, manipulação de pessoas, pactos
tenebrosos, e, no entanto, o que ela quer é tão somente trabalhar em silêncio.
A realidade é que a Maçonaria é uma instituição que não nasceu
pronta. O que houve foi uma evolução a partir das guildas dos trabalhadores na
Idade Média, especialmente a dos pedreiros. Concorreu para o surgimento da
Ordem uma sucessão de fatos associados a determinadas situações históricas,
espalhadas em épocas diversas ao longo de muitos anos. Muitos homens
participaram nesta obra.
Numa sociedade estática como era a vivida na Europa durante a
Idade Média, onde a mobilidade, tanto vertical quanto horizontal não existia,
até para viajar de um lugar para outro era difícil, senão impossível. As
pessoas não se movimentavam, as notícias não eram transmitidas senão conforme
os interesses do grupo que estava no poder.
De uma forma geral, só podiam se deslocar de um lugar para
outro os membros da nobreza, os membros do clero e os construtores. Os
primeiros porque detinham o poder numa Europa estabelecida em feudos, carente
de recursos de todo tipo e onde mantinham o povo em estado de verdadeira
escravidão sob a condição de vassalagem. Os pedreiros, por seu lado, podiam se
mexer de um lado a outro porque conheciam as técnicas da construção. Eles guardavam
o conhecimento das construções como um segredo supremo, só o passando de membro
a membro no interior de sua lodge,
impedindo, assim, que qualquer um se aventurasse em construir qualquer coisa que
fosse. Eles sabiam construir e, portanto, eram chamados para essas atividades
toda vez que surgia a necessidade de um novo castelo, uma nova igreja ou uma
nova muralha.
É bom lembrar que na era medieval, o castelo cumpria basicamente
três papéis: Residência do senhor feudal (o dono do pedaço), fortificação para
defesa contra invasões e saques inimigos, e proteção para a população que ali
dentro se amontoava e servia ao senhor do castelo.
E assim funcionava uma sociedade que não proporcionava a
menor possibilidade de mobilidade para ninguém. O pobre nascia pobre e morria
pobre, e no máximo, podia se casar com outro pobre, e manter tudo na miséria.
Não havia instrução acadêmica e ninguém sabia ler e escrever, exceto aqueles
destinados à carreira religiosa (aqui, leia-se Igreja Católica). Os ricos eram
os senhores das terras, e todo aquele que nela vivia, trabalhava primeiro para
o senhor, e depois, se sobrasse algo, para o seu próprio sustento e o da sua
família. Terras não eram vendidas ou comercializadas, apenas tomadas à força pela
guerra ou ganhas por herança.
A partir do instante em que as cidades começaram a surgir, e junto
delas, uma nova classe social burguesa, iniciou-se a transformação definitiva
daquele modo de vida que havia perdurado tanto tempo. Com o advento do
Mercantilismo, a Europa se transformou definitivamente, e possibilitou o início
da mobilidade das classes sociais.
Os pedreiros, livres para transitarem em função de seus
conhecimentos e de suas habilidades, tinham uma missão mais que nobre naqueles
tempos de trevas: Além de construir, eram os mensageiros, os disseminadores das
notícias e das idéias. Com o passar do tempo, pessoas, aquelas do tipo
pensantes, questionadoras ou insatisfeitas com o status quo predominante, aos poucos foram se infiltrando por entre as
guildas dos pedreiros para possibilitar, eles também, circular por entre as
diversas cidades e países, e com isso, conhecer outras fontes de informação,
além deles próprios levarem suas próprias notícias e informações.
E foi nesse contexto histórico que Maçonaria estabelece a
evolução de seus conceitos, seus rituais e suas práticas. Finalmente, ela se
organiza oficialmente na Inglaterra em 1722, quando algumas associações de
pedreiros livres, ou maçons em sua
denominação francesa, dentro de suas lodge,
resolveram se unir sob uma Grande Loja. Chamaram essa associação de Grande Loja
da Inglaterra. Foi demorado, mas foi simples assim.
A partir daí, sempre envolta em cuidados e muita discrição, a
Maçonaria, como uma instituição formalmente estabelecida, se difundiu entre as
pessoas e entre as nações. Inicialmente pela Europa e logo em seguida pelo
mundo todo.
A Maçonaria teve como um dos seus primeiros codificadores o pastor
presbiteriano James Anderson que compilou e publicou, em 1723, a 1ª
Constituição Maçônica.
O maçom Albert Galletin Mackey publicou nesta época os
Landmarks Maçônicos, um conjunto de 25 preceitos imutáveis da Ordem Maçônica.
São as leis básicas a que todo maçom está sujeito.
Orientando seus seguidores a uma conduta reta, a Maçonaria
sempre cobrou o cumprimento de seus estatutos e estabalece um alto preço
àqueles que se desviam de suas obrigações. O que se espera de um maçom é antes
de tudo uma atitude correta perante seus deveres, tanto no papel de cidadão,
tanto como um pai de família, como para com a própria Instituição. Isso deve
ser seguido à risca, sem titubeios ou incertezas. Ser correto, justo e honesto
não é apenas virtude, mas, sobretudo obrigação. Deve fazer parte da própria
identidade de cada maçom.
Simbolicamente, o maçom deve se posicionar no centro de um
círculo, e este círculo deve se deslocar sempre entre duas retas paralelas. Não
há possibilidade de desvios.
E assim, o que se lê nos rituais da Ordem é a própria
Perfeição, é o estado da arte recomendado na maneira de ser e agir para cada
membro da Maçonaria.
É recomendada a todos os maçons a investigação da verdade
sempre, assim como a tolerância em diversos aspectos das atividades humanas, tais
como o que diz respeito à opinião pessoal dos indivíduos, incluindo assuntos
como religião e fé. Respeito à família e a crença em um Deus, aquele que é
próprio da concepção de cada um.
É esperado também do maçom uma atitude pessoal que leve as
pessoas que estão a sua volta a reconhecer nele um homem digno e respeitoso,
não precisando ele próprio se propagandear como homem bom.
Sendo assim e agindo assim, justo e perfeito, o maçom seguirá
firme no cumprimento de sua mais grandiosa missão de vida que é contribuir para
tornar mais feliz a humanidade.
Parabéns pelos belos textos. No início foram as poesias e hoje, um escritor com grande maturidade, apresenta textos para o deleite dos seus leitores.
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