Porque eu escrevo, ou
melhor, porque não escrevo
véspera do Natal.
Desde muito tempo digo para mim mesmo que escrevo bem, porém
sempre me ocorre simultaneamente o pensamento que isso não é verdade. E começo
a enumerar as tantas razões para me justificar: Não tenho disciplina para
escrever na periodicidade requerida para o aprendizado, idéias recorrentes e
repetitivas, falta de criatividade, falta de estilo, não domínio da gramática,
vocabulário restrito, discordância de idéias e incoerência de pensamento entre
uma coisa escrita agora em relação a outros textos anteriores, incoerência de
pensamento entre o que digo ou que escrevo e o que faço, enfim, um monte de
coisas que me vêm à cabeça que me fazem sentir desânimo em continuar escrever.
Tempos depois, revendo esses pensamentos, acredito que
tudo aquilo são apenas desculpas, esfarrapadas sem dúvida, para eu não
continuar tentando.
Queria escrever como os grandes cronistas? Sim, certamente.
Vivo lendo e relendo Rubem Braga e Fernando Sabino, dentre
outros tantos, repasso constantemente poetas como Manuel Bandeira, Drummond e Vinícius,
vou aos antigos escritores. Queria desenvolver um estilo? Sim, queria. E queria
que o meu estilo fosse daqueles que se lê fácil, sem rebuscamentos, contando
histórias do dia a dia de forma trivial e descompromissada, simples, mas ao
mesmo tempo fiel à realidade e com minhas interpretações pessoais, sem
pieguices num extremo e sem ser repórter de jornal no outro. Sem ter o
pensamento apegado a coerências políticas ou de escolas literárias. Apenas
escrever contando histórias. Queria escrever com frequência e produzir muitos
textos com qualidade? Queria que pessoas lessem minhas idéias? Claro que sim.
Mas não escrevo o suficiente, não tenho um estilo formado,
não tenho domínio sobre a língua portuguesa e não sei distinguir as diversas
correntes literárias. Não tenho disciplina e constância para escrever minhas
idéias.
Isso: idéias. Idéias eu as tenho, e muitas, mas a inércia –
pode chamar de preguiça – me impede de sentar na frente do computador e
escrever. Trabalhar, suar a camisa, fritar os miolos para enfileirar letras,
palavras, formar frases e parágrafos para que minhas idéias se tornem
concretas, e enfim, meu pensamento criar forma a partir de uma folha em branco.
Hoje eu li no suplemento Pensar, de A Gazeta, uma crônica do
Rubem Braga: Natal. E foi ela que me motivou escrever. Não pelo conteúdo da
crônica narrada, mas pela forma como foi escrita. É como ouvir Baden Powell,
Erik Clapton ou Toquinho. Não cansa nunca e é tão bom que até parece fácil
fazer igual. É a arte em seu estado mais perfeito. Simples e perfeito. Li o
texto do Rubem Braga e me embriaguei com sua facilidade em escrever, assim como
ele se embriagou no uísque que bebeu antes de sair de casa para visitar uma
família amiga, conforme sua narrativa.
Hoje à noite eu também vou filar humildemente umas fatias de
presunto e de alegria em uma casa de amigos, mas ao contrário do Mestre, não terei
realizado uma obra de arte e a deixado como exemplo para os próximos que hão de
vir.
Adorei suas justificativas... Então, vamos ao trabalho! Mãos à obra e não pare, não pare não...
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