As besteiras do capitão
o mar não está para
peixe.
Soube da notícia do acidente com o Costa Concordia ocorrido há três dias no Mar Tirreno, em frente à
Ilha Giglio, nas costas da Italia, um transatlântico com capacidade para 3780
passageiros e 1110 tripulantes em 1500 cabines espalhadas nos seus 290 metros
de comprimento.
Foi uma notícia espantosa mais em função do comportamento do
seu comandante do que em função das dimensões do acidente. Os jornais informaram
que o capitão, o italiano Francesco Schettino, aproximou a embarcação da costa fazendo uma manobra arriscada e não autorizada pelas cartas
náuticas.
O resultado foi um rasgo no casco, o navio emborcado e perdido, uma ameaça de
desastre ambiental se o seu óleo, cerca de 2400 toneladas, não for retirado a
tempo e seis pessoas mortas até o momento. Mas todos os demais se salvaram inclusive o
próprio capitão, um dos primeiros a escapulir e chegar em terra firme, não
cumprindo a tradição do mar que diz que o capitão é sempre o último a abandonar
o barco. As autoridades italianas trancafiaram o Francesco. Não por ter provocado
a perda de um navio gigantesco e com apenas 5 anos de operação, mas por ter se
omitido em suas funções.
Este episódio me lembra outros fatos do cotidiano que
carregam o mesmo sentido trágico, mas dessa vez em terras capixabas, mais
próximos de nossas casas, em nossa vizinhança: As mesmas perdas provocadas
pelas improvisações, pelas não providências identificadas e não tomadas a tempo,
as perdas do não cumprimento do planejado, a negligência, a corrupção ...
Quanta coisa que se perde pela não ação e pela omissão.
É de conhecimento das autoridades que as chuvas no Sudeste
brasileiro ocorrem entre novembro e março. Os administradores públicos sabem
disso. Todos sabem disso. No entanto, há uma tragédia anunciada para todos os
anos: as enchentes, os alagamentos, os desabrigados, os desamparados, as
explicações vazias dos prefeitos, as verbas emergenciais, as cenas de
desespero, mas no final de tudo, passado o tempo, não se faz o que precisa ser
feito. Então, depois de um ano, começa tudo de novo, e entre uma enchente e
outra as verbas não chegam onde são necessárias, pessoas enriquecem
indevidamente e políticos se locupletam. E o povo ... Bem, o povo que se vire.
Sempre se virou ...
Os moradores de Vila Velha, Viana, Cariacica, Serra, e de
muitos outros municípios do estado penam todos os anos com o descaso e com a
falta de respeito. E há um componente cruel nessa história: a publicidade
oficial que tenta mostrar justamente para o próprio povo que tudo está bem e em
perfeito estado de ordem.
Certos prefeitos demonstram total falta de sensibilidade e de
caráter quando ordenam a divulgação de mensagens mentirosas, pela boca de
crianças contratadas, informando que o sistema de saúde é o melhor, que todas
as ruas foram pavimentadas, que não há mais filas, que a segurança isso, que a
educação aquilo, enquanto a realidade está aí a olhos escancarados evidenciando
uma disparidade imensa entre o que é dito e o que está disponível para a
população. Mentiras descaradas, mentiras nojentas.
A cerca de quatro anos, um prefeito da Grande Vitória chegou
a divulgar nas rádios e na TV, através da bela e grave voz de um grande ator
brasileiro, que todos os problemas de enchentes em seu município haviam sido
resolvidos. Menos de um ano depois, como era de se esperar o lugar estava
debaixo de água. Novamente.
Assim como aquele capitão que foi encarcerado pela omissão de
suas funções na Toscana, como seria bom e importante para o moral do povo
brasileiro se houvesse um jeito de trancafiar nossos administradores que não
cumprem com os seus compromissos e obrigações.
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